Pés

[Bianca B., 25 anos, psicóloga, casada. Redatora e revisora fixa do projeto Curinga. @biancabrbz]

|Texto revisado por Débora Maranhês e por Tayline Oliveira|


Este é um relato baseado em uma experiência recente. Por meio dela, pude constatar que, muitas vezes, se sentir leve envolve a liberdade no seu sentido mais concreto e bruto. O sentimento intensifica-se quando é proporcionado a outra pessoa. A leveza também vem quando se divide momentos.


Era um dia bem quente. Em meio a uma pandemia, vários ventiladores ligados tentando aliviar o calor e dissipar o tédio dos dias arrastados falhavam miseravelmente em ambas as tarefas. Marcela estava há vários minutos trocando de canal sem parar, e não se concentrava em mais nada que estivesse atrás de uma tela. João balbuciava aqueles sons que só uma irmã treinada é capaz de entender quando o caçula está de chupeta. Estava próximo dela, assistindo os mesmos vídeos repetidos no celular.


Havia dias que não saía para lugar algum além da rua onde moravam. Já fazia um ano que não via os colegas da escola. Mesmo em casa, colocava o uniforme escolar para fazer as tarefas: tentava preservar o mínimo de rotina possível. Seus tênis eram sempre impecáveis e seus pés ficavam, na maior parte do tempo, escondidos lá dentro... Alheios às sensações externas ao sapato. Raramente sentiam o frio do chão, muito menos conheciam outros materiais com texturas diferentes do piso liso do banheiro.


Em outra época, quando se tinha mais liberdade, Marcela já havia se surpreendido com tapetes felpudos, com a areia da praia, a grama do jardim da avó, terra molhada no sítio da tia, poça de chuva em dias de tempestade, cocô de vaca durante as férias na fazenda e, até mesmo, pedregulhos em torno de uma cachoeira. Contudo, isso já fazia vários meses. Olhou para os próprios pés. Estavam muito bem cuidados, as unhas em perfeito estado; sua mãe ficaria orgulhosa.


Levantou-se repentinamente, mexeu em alguns materiais escolares — que havia comprado no ano anterior, mas nunca tivera oportunidade de usar — e chamou o irmão para o quintal da casa. Lá fora estava uma brisa suave, que evidenciava o suor e tornava o farfalhar das árvores audível. Tirou os sapatos e solicitou que João fizesse o mesmo. Ele obedeceu, mesmo sem entender nada.


Marcela estendeu uma folha enorme de papel pardo no chão. Facilmente poderia deitar-se em cima dela e contornar seu corpo, porém não foi o que fez. Ela escolheu algumas tintas e as derramou, despretensiosamente, em alguns pontos do papel. Em seguida, tocou em uma das pocinhas de tinta com seus dedos e sentiu aquela substância aquosa e gelada.

Propôs ao irmão:

— Vamos fazer um desenho? Você começa!

João demorou alguns segundos antes de se aproximar mais dos materiais. Olhava para o chão e para a irmã algumas vezes antes. Marcela movimentou a cabeça em sinal de afirmação. O menino molhou os pés de azul. Levantou o pé para observar o resultado, e, em seguida, carimbou seus dedinhos pequenos, rindo. Foi até a próxima cor e afundou os pés, fazendo com que se acumulasse excesso de tinta entre os dedos. Então começou a se deslocar pela folha, facilmente, aproveitando a fluidez do líquido colorido que quase não oferecia resistência ao movimento.


Fez vários movimentos — até então impossibilitados pelos sapatos — e, finalmente, percebeu as diferenças entre os tamanhos dos seus dedos enquanto imitava patas, fazia montanhas e pássaros. Também começou a andar sobre sua obra com mais cuidado, pois já havia passado por alguns escorregões. Em sequência, deixou o desenho de lado e apenas ficou deslizando — como se estivesse em uma pista de gelo — apoiando-se nas mãos da irmã mais velha.


Assim que a tinta começou a secar, foi até uma torneira baixa, a que seu pai usava para regar os vasos aos finais de semana. As cores misturadas se soltando de sua pele faziam diversas formas coloridas enquanto escorriam.


Marcela se aproximou com o sabonete e o ajudou a lavar seus mais novos pincéis biológicos. João ria bastante enquanto sentia a leve pressão e o toque. Ela notou que seus músculos estavam relaxados. Ele abraçou a irmã muito forte e demorou-se sorrindo, com os pés molhados escorrendo felicidade.

Muito daquilo que nos protege, também nos prende. Qual foi a última vez que você se aventurou a experimentar algo novo? O que seus pés já sentiram hoje?


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