Alma

[Lara Goulart, 20 anos; Redatora chefe do Projeto e estudante de Psicologia.]


Viva, etérea, infinita. Essa sou eu.


E esse eu é rachadura nas paredes acirradas das cordas de um nó aperto que laça o final de um nós fechado que não me permite

s

o

l

t

a

r

Se existo é porque resisto a mim mesma e aos meus pudores, estes muitas vezes podres de expectativas pouco alimentadas, que seguem adubando a macieira que faz flecha a ser direcionada ao meu peito.

E eu, serpente, a cobrar de mim mesma a revolta que me revolucionará. Só assim serei

h u m a n a

Muito humana. É isso que quero, mas querer é outro canto.

Tão humana quanto a pele que visto, o sangue que faço correr e o coração em que bato.

Moro nessa pele, sou o sopro desse barro. Bebo desse sangue, rego a terra e cresço em raiz. Sou esse ritmo, a batida, eu que manifesto a pulsão.

Acendo fogueira para mim mesma.

Me aquece, arde, dança.

Danço, meu corpo é terra que toma forma, ar que alimenta, água que mantém e

M v m N a

o I e t

E eu? Eu sou fogo que ilumina e que destrói, que dá e tira vida, que é Ser, essência.

Nessa mesma fogueira queimam corpos diversos, longe e perto do meu. Corpos que pulsavam, dançavam, amavam. Fizeram cinza de suas almas, de sua história, cortaram-lhes a chama interna num apagão que obrigou-lhes a seguir luzes menores.

Ouço corações disparados e outros que pararam.

Ouço vozes que rezam e outras que não sabem o que pedir. Ou para quem.

Ouço o estalo das peles que formam a mais linda pintura em tantas cores e formas. Quem alimenta este fogo azul impuro veste casacos dessas mais lindas peles para esconder a brancura do vazio que carregam.

Das infinitas dores de ser eu ou de não ser outrem, a do desassossego é a maior.

— vibram-me quando quero descansar —

Não posso diminuir o ritmo, não posso parar. A morte assombra com a brincadeira de chegar violenta, sem razão. Nada natural.

Quando não temo por meu corpo, hei de temer por outros. O medo faz parte das peles de cordeiro, o lobo mau persegue esses corpos mais bonitos e diversos que não vê no espelho,

F U J A M !

Na corredeira da esperança, ora alaga e ora pinga.

O cal das rochas que esperam por se tornarem areia e voar me mancha a alma e, ao olhar o céu, o sol me ilumina a ver oceanos de paz e desejo.

Ah, deuses! Seu canto, puro cálice em cobre do encanto a ser des

velado

Sou desejo e sou vontade, deusa e deidade das duras dores e aéreos alívios, assombro e terror, doce e amargo, delícia e desamparo. Sou Jocasta e sou Édipo. Jogue um pouco mais comigo, admira-me a persuasão.

Divina, tudo quero e tudo faço. Nada sobre o niilismo profundo que me joga a nadar no Nilo em direção a Rá.

Serei Sol. E sereia, te contarei dos meus encantos.

O canto corpóreo do sentido é dos mais bonitos.

É a descida em cachoeira de esperança para ser, em si, água

e aguar o mundo sob os próprios pés.

É desfazer-se da terra firme que sustenta o corpo

e vivenciar a lama que abraça e aconchega.

É descuidar-se do ato firme de respirar

e se permitir inflar e alçar voo na leveza de ser vento.

É…

É livrar-se das cinzas de nós e des nosses

e dançar como chama, no chamado do fogo essência.


Perco-me no prelúdio dos meus finais. Quero dizer que sou mais que corpo, ele é meu e só a mim move e manifesta, sinto-o profundo em mim e o desejo. O desejo também não sou, mas é a mim intransferível e o caminho ao prazer. Sou prazer.

Prazer, Alma.

Como a sua alma se apresenta? Você consegue se ver no texto?





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