Maçã


[Lara Goulart, 20 anos; Redatora chefe do Projeto e estudante de Psicologia]



É ensurdecedor o que se diz sem ter palavras perdidas no caminho.



A árvore que cai na floresta não faz barulho porque não há ninguém lá, mas gritam os outros seres enquanto ela aterrissa, é só chegar perto e gritará você também.


Essa árvore que não fala, comunica. E me diz que somos uníssono, que eu poderia muito bem ser ela se as partículas tivessem se agrupado diferente ao meu redor...


O mover-se contínuo da seiva nos veios fala na língua da veia que pulsa o plasma, estalam os galhos em conversa profunda com os ossos, também mexidos pelo ar frio na espinha, o farfalhar das folhas responde ao dos fios e, entre cabelos e copas, o fio vermelho tece firme a relação de companhia.


Quem é essa que se arrisca a falar com o mundo? Um mundo silencioso que não nos responde? Um mundo divino que acaricia a barba sem olhar nos olhos?


Serpenteio e te convido a parar e ouvir: ouvir que o silêncio também diz e diz demais e de tudo e que não só se faz ouvir, mas também ver e sentir. Morde, vem! Morde quieta a fruta da árvore que não cai. A maçã é doce para você? Não abocanha a mesma que te ofereço, ce n'est pas ma pomme (essa não é minha maçã). Um pensamento compartilhado e só. Você morde aquela que imagina e eu te ofereço a que é verdadeira, você recebe a que eu inventei e aceita a que é verdadeira. Mas eu te ofereço uma maçã e você a morde, não importa. Temos um acordo. Viu? Em silêncio.


Falo com esse mundo silencioso porque ele sabe que sei ouvir. Conversamos porque também sou silenciosa e também sou mundo. Sei que a árvore falou mesmo antes de cair e ela sabe que também falo antes de dizer.


A sala de audição está tomada! Não haverá tempo de lamento: ouça a maçã, que mais há? Deixe-se saber, pelo silêncio, dos segredos que o mundo te sussurra na boca, na pele, no nariz e nos olhos. Pare para ouvir o sabor e logo saberá comunicar um mundo que não precisa escutar para ouvir. Ouviremos cheiros e sabores, pessoas e lugares, amores e desejos, vidas e sobrevidas. Todas comunicadas no silêncio. Sairemos da ilha, do jardim. Será nosso um paraíso silencioso e vivo.


Comece pela maçã!


Que cor ela te diz ser? Quanto te conta pesar? Fala de um jeito doce?

Se não a morde, pode saber que olhá-la a fará olhar de volta. E ela morde. Arranca-lhe o chapéu cuco e os sentidos, te fará conversar no silêncio. Como um bosque depois de caírem no chão suas frutas, se verá num mundo assombroso e ouvirá dele sussurros a te dizer que tem lido a vida errado.


Eu, deste lado, carrego o corpo todo no chão e, por baixo das árvores, cobro do mundo que fale comigo. Maçã na cabeça, novas ideias.


Ele falou, em silêncio.



O texto é uma brincadeira, o convite ao silêncio, no entanto, é sério. Você costuma ficar em silêncio? Ouvir o mundo à sua volta? Ou até mesmo seus próprios pensamentos?

Conta para mim, o que achou da provocação? Concorda que o silêncio fala?



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