A ANGÚSTIA DE SOLISMAR

[Alex Pereira Rodrigues (@alexesoh), homem cis, 28 anos, pardo, homossexual. Atua como escritor de ficção científica no gênero biopunk, professor, revisor, tradutor e estudante de Letras na UEMG. É redator no Projeto Curinga]


O tempo de pandemia traz algumas oportunidades além do distanciamento. Mas isso não era diferente antes deste período para Solismar. Ao que tudo indica, ele terá muito o que enfrentar.

Já era dia e a falta de sono me consumia. Era a quinta noite consecutiva. Deitei-me por volta de uma da manhã e, incrivelmente, às quatro estava me remexendo na cama repetidamente.


Tentei focar em algo… talvez a água corrente em algum lugar inespecífico. Mas nada, absolutamente nada, conseguia fazer meus pensamentos pararem. Por anos eu frequentei cultos religiosos. Mudei-me para uma cidade a 300 km da minha cidade natal, onde meus pais moravam. Foi a partir desse momento que eu resolvi enfrentar a vida de uma pessoa que sente-se sozinha no mundo. Talvez eu colocasse muito do peso referente a meus pais nas costas. Mas, de fato, eu não conseguia ver a responsabilidade pelo meu desenvolvimento na mão deles. Isso porque me sentia capaz de “ter uma vida”.


Uma vida só minha.


Meu colega de apartamento me fazia conhecer pessoas diferentes. Todos os fins de semana, festas eram organizadas em nossa república: dessa forma, mantínhamos o apartamento locado sem tirarmos dinheiro do nosso bolso. Nós éramos melhores amigos desde o colégio. Assim que  soube que eu queria ter uma vida diferente da que eu então tinha, ele me dispôs um dos quartos que haviam acabado de vagar.


Meus pais tinham uma relação complicada. E acho que, além de seus problemas terem sido uma das minhas cargas psicológicas, a religião talvez tenha sido uma dessas coisas que eu trouxe junto... como bagagem.


A vida de festas - conhecer novas pessoas, condutas diferentes e formas de vidas complexas - aos poucos foi me libertando das amarras que prendiam-me dentro de uma vida que representava mais uma das caixinhas que categorizam a realidade.


Eu me tornei um homem livre. Ou eu acreditei ser livre, tendo me tornado aquilo que tornei.


Com o tempo, comecei a encarar as pessoas, as vidas e tudo o mais como algo banal e passageiro. Tudo aquilo em que acreditei durante toda a minha vida se despedaçava e, simplesmente, ia-se. Com o tempo, meus sentimentos acompanharam o fardo. Não houveram intermediações entre o que eu realmente considerava e o que eu não considerava.


Uma vez, procurando emprego e sendo ajudado por meu amigo, vi-me rompendo com todos os laços e vínculos que eu tinha, fossem familiares, religiosos ou mesmo amorosos (este último, na verdade, foi um dos primeiros casos que tive na nova vida e, francamente, não me levou a nada).


Tempo.


Perdido.


Estou, agora, andando pelas ruas de Paris. Ou a Nova Paris, como costumam chamar os economistas liberais. Não consigo achar nada de bonito nesse lugar.


Os homens construíram castelos de mentira.


As pessoas têm uma visão de algo no mundo e alcançam o poder para influenciar os outros - que também o almejam - a seguirem sua linha de raciocínio.


E eu, claramente, vejo.


Fui instruído em direção ao que meus pais acreditavam e, com isso, pude construir minha própria ideia de liberdade, livrando-me das crenças limitantes desse início e refletindo sobre tudo o que instituía-se em minha vida. Acredito na função dos pais... sendo esta educar, amar, instruir, preparar o cidadão à manipulação, assim como foram manipulados. Por que uma criança não pode fazer algo, sendo que a inocência não dita regras?


Ao alcançarmos a maioridade e, com isso, a tomadas de decisões (o que disseram ontem, em aula, ser decorrente do amadurecimento do córtex pré-frontal), é nosso dever, como seres humanos, pensar como retornaríamos à realidade de nossa inocência. Questionarmos.


Por que eu sou assim? Por que o mundo funciona dessa forma? Qual a premissa disso tudo…? Sermos livres. Nossos atos nos aprisionam. Mas, em busca de nos livrarmos de nossas amarras, a liberdade seria nosso juiz. Quem poderá nos prender se somos livres?


Considero que, com isso, minha vida mudou e sou levado a crer que ela está a mudar. Talvez eu possa ser chamado de louco, ser chamado de frio. De fato, sentimentos são vínculos. E vínculos levam às escolhas. Escolhas geram consequências. E, novamente, estamos presos ao que era o meu dever me libertar.


A liberdade é um preço  que se paga. Não para os homens, mas para si mesmo.

— O quão forte você se considera para ser livre? — foi o que o ator me perguntou (nos perguntou) durante a apresentação dos seminários universitários, frente ao que eu relembrei não ter chegado perto de querer matar meus pais, nem ao menos descontar minha raiva por ter sido traído pelo meu amigo... e expulso de casa. 

Simplesmente aprendi com a vida que sua maior lição é que ou cansamos de ser livres ou estaremos em constante busca por liberdade... Sendo reprimidos pelos que prenderam-se à teia que é a sociedade de consumo.


Você não é você e sim o que pensam ou fazem você pensar que é.


Não há liberdade nisso. Apenas cobranças, críticas, julgamentos. Cidade das luzes e frequente insônia. Vi a explosão da empresa na qual eu trabalhava: todos os colegas de trabalho sendo dissipados. Estou recorrendo à justiça para verificar minha situação financeira, uma das amarras mais profundas que a sociedade conseguiu lançar sobre mim. Talvez seja uma das únicas que eu ainda carregue, dentre as que retirei de mim, aquelas vindas dos meus pais.


Não sei o que fazer. O mundo não foi feito para os livres.


Não o mundo construído e instituído pelos homens. O mundo foi feito para os que têm amarras mais frouxas. Aquelas que prendem, porém não te sufocam tanto: aquelas com as quais você ainda consegue andar.


Mas essas amarras que permitem movimentos a alguns não poderiam sufocar outros presos, quando um deles tentar sair da teia? Ainda não decidi onde estou na teia… Talvez eu ainda não saiba. Não sei se “decidir” seria a palavra correta para explicar qual minha real função nela, tampouco qual analogia representaria a minha imagem ali.


Mais uma noite se instala e, mais uma vez, estou a ser atormentado pelos meus pensamentos... depois das quatro da matina. Minha mente está presa ao corpo assim como ele está preso à teia? Talvez ela tenha tentado se livrar daquilo que prende-a, mas, ao mesmo tempo, necessite disso. Quantas horas mais ficarei pensando sobre isso, até que o alarme soe para que eu vá novamente ao advogado? E pensar naquelas ondas, causadas por um animal em uma água parada, relaxa mais do que uma bonança após a tempestade? Deixarei a água lavar meu corpo... e mente. 


Até que eu afunde... ou me salve.


Afinal de contas, preso ou livre, a solidão me rodeia. Minha própria incompreensão me sufoca. Meus julgamentos me apertam.


— E como anda o diagnóstico, Professora? — a garota lançou uma mecha loira em um gesto rápido antes de virar os olhos, movendo-os da prancheta para a mulher de jaleco e óculos de gatinho mais próxima.


— Não creio que cheguei a qualquer um. Ele diz sobre realidades que sua encarregada nunca mencionou, como se criasse tudo em loop. Há dias diz a mesma coisa. — Ela contraiu os lábios finos como se lhe amargurassem os possíveis prognósticos antes de os passar à estagiária. — Acredito que teremos que deixá-lo de quarentena novamente.


— E as pessoas de quem ele diz tanto, quem são?


— Elas não existem. — Ela a fitou, em alerta, por detrás do reflexo que as telas da sala produziam nas lentes do óculos. — A responsável por tirá-lo da estação de trem está fazendo o possível para encontrar os familiares. Neste meio tempo, ela o mantém aqui na clínica. Acho que prefere-o aqui por conta das salas de ressocialização. O que não temos visto é progresso, como você vê.


A loira voltou os olhos das gravações para a prancheta que segurava, a fim de tomar uma nota. E, logo após, saiu da sala, querendo saber o que sua professora faria.

O existencialismo é filosófico e profundo, assim como a vida de Solismar. Alguém próximo a você conseguiria dizer, afinal, o que tem Solismar? Compartilhe esse texto com os migos para descobrir.

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