A equilibrista, a corda, o bastão e o chão

[Lara Goulart, 21 anos; Redatora chefe do Projeto e estudante de Psicologia]

|Texto revisado por Gabi Martins e Juliana Veríssimo|


Muito pouco tenho que me sustentar nesse corpo e nessa vida, mas carrego, sim, muito o que me movimenta, bom ou mau.


Estar sempre por um fio é que me fez quem sou, seja lá quem for esse eu momentâneo.

Os pés podiam sempre falhar no próximo passo e o chão me esperaria frio e receptivo. Ou então poderia me levantar sem acordar e percorrer os mais longos caminhos fugindo dos monstros da minha mente. Também podia ser que eu acordasse e não me levantasse, nesses casos me tirariam da cama e colocariam no meu rosto um olhar meio morto de quem “estou bem sim, só cansada”.


Cair era a expectativa que chegava sempre de surpresa. E como caí. Ralei tudo o que tinha e joguei fora dias e dias nos longos ‘não-consigo-me-mover’ após um tombo ou outro. Mas aí é que está. Ou melhor, estou. Ou melhor, aqui.


Aqui é que estou, isso:


Levantei o suficiente para cair e ralar mais vezes e sigo em pé - ou quase, depende do dia. Estar por um fio de não ser mais eu quem olha de volta do espelho me fez quem o encara hoje, mas não só. Também me trouxeram até aqui as felicidades, as forças e os amores que cultivei. Também me fizeram eu as mãos que me levantaram e me empurraram, até. Algo dentro de mim soube dançar incontáveis vezes na corda bamba que me segurava acima do mar de dor que me chamava, essa força me fez eu.


E parte dessa força veio de não mais querer doer e do medo de aceitar morrer, sim, veio do fio que me desafiava. Mas preciso me esforçar em lembrar que também sou a graça e a garra da equilibrista.


E o bastão do esforço em manter um meio termo, também. E o público que vibra e reza para que aqueles pés pequenos se segurem na corda e aquele fio fino não rompa.

Sou feita das dores e das flores.


Sou tudo o que me estendeu a mão, tudo o que me pôs no colo, tudo o que me tirou riso e sorriso e tudo o que me manteve sã para que não fosse só tudo o que me doeu.





O que fez você ser você? As dores ou as delícias? Ou ambas?

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