A noite de Al-Bikkan

[Alex Pereira Rodrigues (@alexesoh), homem cis, 28 anos, pardo, homossexual. Atua como escritor de ficção científica no gênero biopunk, professor, revisor, tradutor e estudante de Letras na UEMG. É redator no Projeto Curinga]


O ano é 2079 e outras pandemias passaram pelo país, fazendo com que as pessoas se reinventassem durante o isolamento social. Nesse contexto, como essa realidade dialoga com a arte? Haveria ela modificado a forma de viver daqueles que têm mais tempo em casa? Neste conto, o autor conta como Al-Bikkan passou um de seus dias mais apocalípticos.


Era tarde da noite e Al-Bikkan respirava ofegante do quarto para a sala, desta para o quarto. Tinha muito o que fazer, "costumava abraçar o mundo com as pernas" já lhe dizia sua mãe. Aquela noite não era diferente. O holograma jornalístico pousava em um canto da sala noticiando problemas locais, a cama o chamava, mas a luva em sua mão o lembrava do projeto que ele já largou três vezes em meia hora.


Precisava de água, fosse bebendo ou duchando-se no banho. O que não pareceu resolver, porque falava coisas sem sentido para o gato espreguiçado sobre o sofá. Acarinhou-o, levou papel e caneta da mesa para cama, encontrou a luva e se perdeu de novo.


Estava bloqueado, não vinha, não dava.


Trocou a programação jornalística pela extensão do biotablet, o que abriu em feixes interativos da televisão da sala duas abas de softwares diferentes. Numa tocava música sem voz e compassada, noutra a tela pedia a primeira tintura para ganhar vida.


Em um gesto, trocou-as por um aplicativo de redes sociais. Na maioria, eram textos curtos e imagens vagas. Estava desacostumado a ler. A mescla de imagens e textos tem sido recriada com o tempo.


Ele sabia quem era, mas não se recordava como foi que a transição se dera. Talvez pela geração anterior, quando substituíram as gramáticas normativas pelas descritivas visuais. E depois, pelas gramáticas visuais somente. Cada cor tinha um significado. Assim como a posição na página, a montagem, o realce.


Cada detalhe daria alguma pista e ele não queria escolher. Era difícil para ele ficar sem o que fazer e quando levava a mão para fazer, não conseguia.


Deixou de lado o gato que estava no colo, passeou na rua com seu tênis esporte. Seus óculos borravam com o ar quente fugaz do calor da máscara. Desde a primeira pandemia que obrigaram o uso dela em 2020, a civilização não parou de adquirir novas regras de higiene. Por sorte, a maioria delas não passava de quinze dias de teste em algumas cidades.


O que ele criaria não vinha. Eram sempre novas ideias, mas elas pareciam as mesmas. Quando se decidia, voltava à incompreensão do tema, detalhamento excessivo, significantes demasiados. Tudo naquele homem parecia suficiente para o cansar. E essas mesmas coisas que o pediam para sair não encontravam a liberdade.


Pessoas iam e vinham na praça com seus cachorros grandes e médios, sacolinhas à mão para a merda, mascaradas tanto que pareciam mascarados os pets além delas. Arremessou à uma criança que corria, a bola que havia parado no seu caminho. Rodou mais de dez vezes a praça em caminhada e ainda estava insatisfeito.


O quarto se iluminou de azul quando a biometria destravou a porta do corredor. Seu gato permaneceu imóvel na cama. Deixou de entrar pela sala para não enfrentar os fantasmas da casa, nem as vidas microbiológicas que estavam se tornando visíveis a olho nu na pia.


Pensou em tudo, um triângulo, uma bola, um travesseiro, uma pepita, um megafone. Qualquer coisa que o fizesse trocar os gêneros para incluir ou excluir elementos do seu trabalho, o ajudaria. Assim ele pensou e assim vinha fazendo há uma semana.


A normalização de pesquisas biotecnológicas em casa não lhe dava a menor ideia. E, incrivelmente, ele havia considerado criar as imagens do seu cliente de forma rápida e assertiva. Odiava bactérias, vírus, o que viesse do “reficofage” ele gostaria de queimar.


Tornou-se um conhecedor de carros e mísseis no passar de segundos. Parafusos e fluídos lhe interessavam tanto quanto a combustão termoquímica, a televisão, computador e disckman. Mal conseguia se lembrar do brilho metálico na paleta de cores, mas antes de ir para a cama, era o próprio constructo 626.


O estalo dos estilhaços de vidro lhe acordou e saiu da cama na explosão que o seguiu. Correu à janela, certificando-se de estar o vidro no tema fosco pelo lado de fora. Viu o carro do vizinho pegar fogo e um carro cantando pneu em meio a neblina que fazia na rua.


Depois de algumas explicações que enviaram no grupo do condomínio, ele se acalmou. Sentou na sala e lhe veio a ideia de construir um carro biomodificado. Interior metálico, mas exterior de couro. Como isso lhe ocorreu, não parecia ter a menor ligação com o evento. Ainda mais quando descobrira que o carro era de outro prédio e não da vizinha que ele acreditou ser. Ligou o biotablet e expandiu a tela, como fazia sempre que se sentia determinado a varar noites em uma ideia. O gato havia sumido e ele nem vira, estava muito acostumado a não perceber as coisas em meio aos seus muitos pensamentos. O que importava era que o carro tivesse quatro portas, uma mistura de elétrico com biológico e um pouco de...


*Baque*


Certo que era o gato quebrando vidro na cozinha. Ao cruzar a porta arrastando o chinelo, sente um cheiro estranho vindo de um líquido gelatinoso, pesado e frio que tocava seu ombro. O musgo verde entrou por sua boca e cobriu seu corpo. Toda a casa estalava de frio e de umidificação sob a luz verde.


Quando a porta se abriu, já haviam violetas nas paredes.

Enquanto Al-Bikkan é abduzido pelos seres que colonizam a pia dele na cozinha durante a pandemia, por que não aproveitar para dar uma olhada nas outras artes que estão rolando aqui no blog?

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