A RECOMPENSA

[Alex Pereira Rodrigues (@alexesoh), homem cis, 28 anos, pardo, homossexual. Atua como escritor de ficção científica no gênero biopunk, professor, revisor, tradutor e estudante de Letras na UEMG. É redator no Projeto Curinga]


August Butler passava por poucas e boas até que em um enamoramento, casou-se e tão logo, teve uma criança. Não tendo como sustentá-la, aprendeu ofícios. Será que ele conseguirá se manter com a criança? Confira no texto “A Recompensa”, de nosso redator Alex Pereira.

O extravasamento terrestre implementou novos dispositivos e documentos advindos de instituições sociais. Alguns destes, o pinglo, foi desenvolvido para conectar bionanoplacas aos aparelhos remotos, implantada por tatuagem a um piercing ​com LED que levavam os blecaianos um à nuca e outros dois aos tornozelos. Os comerciantes os expunham em vitrines digitais e armários à frente das lojas.

Assim, podia-se acionar remotamente o recurso aos cativos fujões e estes caíam. Os dois aos pés, paralisavam-os, em pé ou caídos. E o do pescoço, punham-os a dormir (tecnicamente, fazia perder as lembranças de curto prazo aos cativos por lhes causar despolarização neurocelular). Desta forma, onde quer que andassem, sinalizava online​ o registro e com pouco o pegavam.

Há uma década, acostumou-se com a frequência a qual os cativos fugiam. Eram muitos, como se esperava do processo de neodominação, e nem todos gostavam dela. Ocasionalmente, tomavam choque, e disto também não gostavam. Havia alguém de casa que responsabilizava-se e mesmo o portador não era mau. Fora isso, o sentimento de posse os moderava, afinal dinheiro também dói. Entretanto, a fuga era periódica. E quem perdia o cativo, geralmente oferecia dinheiro a quem o recuperasse.

Os anúncios nas propagandas exibiam os traços do fugido: nome, roupa, característica física, o bairro sinalizado e a quantia da bonificação. Em vez do valor, podia-se ver ainda muita promessa, como: “recompensa-se generosamente” ou “receberá uma boa recompensa”. Era comum que o anúncio trouxesse em cima ou ao lado uma imagem do tipo gif​ com a figura do blecaiano correndo e segurando alguns pertences ou sacola.

O trabalho do tempo era o de agente mercenário e no serviço online​ se anunciava o bico para quem buscasse um cativo fugido. Ninguém gostava de fazer esse tipo de trabalho, mas a pobreza, a necessidade de trabalhos, o acaso e o gosto também, davam o impulso àquela incerteza de quem se receasse em botar ordem na coisa.

August Butler cedeu à pobreza quando adquiriu o ofício de pegar cativos fugidos. Seu defeito grave era não gostar de trabalhar. Os terráqueos chamavam isso de Burnout ou caiporismo (no Brasil), faltava-lhe estabilidade.

Interessou-se em aprender rejko​​, mas viu cedo que era preciso algum tempo para passar a lutar bem e, ainda assim, “poderia não ganhar o bastante”, disse a si mesmo. A arte lhe chamou a atenção, era carreira boa, ouvira. Começou a tatuar para uma loja de conveniências. Porém, a obrigação de gastar com tinta para teste e carne bio-impressa o feria no vortico​ do orgulho e já estava na rua por vontade própria sem nem dois meses completos.

Quando se apaixonou por Mônica, uma blecaiana da província central, só tinha dívidas e morava com o tio, um engenheiro. Depois de várias tentativas para conseguir um emprego, decidiu por adotar o trabalho do tio, de quem já tomava algumas aulas. Quis aprender rápido e aprendeu mal. Assim, não tentava nada rebuscado nem complicado, apenas modulava ligas de ferro-nióbio para a tecnologia da época e emplacamento de software​​, geralmente dos pinglos (as bionanoplacas). Queria ter com o que trabalhar quando casasse, o que não demorou. Tinha lá seus trinta e cinco anos, Mônica trinta, era órfã, morava com uma prima, Teresa, e vendia marmitas com ela.

Anos mais tarde, August se desembestou a dar com os burros n'água e largou o ofício do tio. Teresa que já havia avisado a eles que a instabilidade poderia prejudicar a gravidez da prima, ficou ainda mais incisiva quando esta deu à luz enquanto ambos vieram a estar desempregados. Sabia que as condições continuariam desfavoráveis e, como basta, persistiu na ideia de dar a criança ao Fluxo de Enjeitados. “Se você não a levar, eu levo”. Butler pediu que esperasse, que ele levaria. Nem bem amamentaram e já tinham que pensar naquilo, passada a chuva do dia, no outro era certo que ele a levaria, disse.

Aproveitou para rever todos os flyers​ de cativos fugidos. A maioria era promessa, mas uma pagava cem monos. Tratava-se de uma blecaiana cinzenta e algumas indicações dos traços e vestimenta.

Saiu de manhã a indagar sobre o paradeiro no lugar sinalizado: Largo da Latinamérica, Rua do Brasileiro e da Guianesa. Perguntou a um farmacêutico na Rua da Guatemalteca e ele disse ter vendido um monte de medicamentos há uns dias à pessoa indicada. August, que parecia falar como o empresário da cativa, agradeceu-lhe. Voltou para a triste casa e Teresa já havia arranjado a menina para ser levada ao Fluxo. Cogitou mil modos de ficar com a filha, nenhum prestava. Pediu ajuda à esposa, que não conseguia responder-lhe. Teresa ilustrou a criação da menina falando sobre miséria e que já havia visto morte por falta de recurso.

August Butler se sentiu obrigado a cumprir a promessa e saiu com a filha rumo a Rua dos Peruanos. Pensou mais de uma vez em voltar com ela para casa, agasalhava e a beijava. Ao entrar na Rua do Chileno, começou a desandar. “Vou entregá-la o mais tarde que puder”, reclamava ele. Mesmo que a rua logo acabasse. Decidido a enrolar a rota, entrou num dos becos que ligavam aquela à Rua da Guatemalteca. Ao fim do beco e, indo a dobrar à esquerda, na direção do Largo do Brasileiro, viu de lado um vulto de mulher: era a blecaiana, a fugitiva.

Desesperou-se o homem. Se ela descia, descia ele também; e logo estava a farmácia que informaram-lhe antes. Pediu ao farmacêutico para segurar a criança rapidinho que já já voltava. Saiu rápido atravessando a rua até que pudesse pegar a mulher sem alarde. Quando ela ia a descer a da Uruguaia, ele se aproximou. Era ela mesmo.

— Maria! Gritou enquanto sacava o biotablet do bolso para acionar o aplicativo do pinglo.

Maria só compreendeu quando focou no biotablet​ e quis fugir, mas já era impossível. Caíra em um baque e August Butler aproximou-se e a atava os pulsos. Forçadamente, ergueu a cativa, que mesmo tendo reagido com um grito mais alto, cessou: ninguém viria libertá-la, ao contrário. Aí ela pediu para que ele a soltasse por tudo o que fosse mais sagrado.

— Estou grávida, meu senhor! Exclamou. Por favor, você não tem filho? Solte-me, eu te imploro. Faço o que você quiser, por favor, solte-me!

— Anda! — repetiu August Butler.

— Não, solte-me! — Porém, era forçada a andar.

— Pare de enrolar! Vai!

Duas vezes de choque no tornozelo ele deu. E ela gemendo, arrastava-se a si e ao filho. Quem estivesse por perto compreendia o natural e não ajudava. Maria alegava que o portador era muito mau e passaria fome — que seria pior para ela porque ele não se compadeceria.

— A culpa é sua. Quem mandou fazer filho para depois fugir? — retrucou ele.

Arrastou a cativa pela Rua dos Bolivianos, em direção à Equatoriana, onde residia o empresário, portador dela. Na esquina, a memória da corda e do porque fugira vieram à tona: a cativa quis dar no pé e recuou inutilmente. Depois de atrasados, chegaram. Ela arrastada, desesperada, arquejando. Ainda ali pedia e clamava. Mas logo o murmúrio fez o portador aparecer à porta.

— Parece que a acharam.

— Pois bem — o mercenário murmurou olhando para a fugida cinzenta encostada molemente à parede

— Levante! Entre... — Maria se arrastou pelo corredor. O portador da cativa abriu a carteira digital e transferiu os cem monos de bonificação a August Butler, que conferiu e guardou o neotablet​ ​. Ouviu a repetição da ordem para que ela entrasse. E, ao chão, tomada de medo e dor, ela gemeu e se contorceu, por fim, abortou.

August viu toda a cena. Perdeu a noção das horas. Mas independente disto, saiu rumo à Rua da Guatemalteca. Quando chegou à farmácia, o pai recebeu a filha com um descompasso entre fúria e amor. Agradeceu depressa, feliz por não ter mais que levá-la ao Fluxo dos Enjeitados, mas para a casa com os cem monos. Teresa, entendeu e perdoou a volta da pequena, já que ele havia voltado com dinheiro. Indo para o quarto ver a esposa, ficaram horas sem largar da menina. A ele ficou certo que nem todas as crianças vingam.


Entre escolher quem vive e quem morre, a necropolítica vem fazendo isto a um bom tempo. O que deixa forte o fato de que “nem todas as crianças vingam”. Para mais textos como este, siga o projeto Curinga e seus textos.



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