Artistas na pandemia: o fazer e o consumir arte durante o isolamento

[Jovipe, 19 anos, @j0vipe no Instagram]


Confira a primeira parte de uma série de seis entrevistas que buscam entender como o cenário pandêmico, a quarentena e a negligência do governo afetaram e ainda afetam as realidades de alguns artistas.


A classe artística foi uma das primeiras e mais prejudicadas pelo isolamento social. Artistas e grupos que dependem do contato direto com o público tiveram interrompidas suas atividades e suas fontes de renda - afinal, a maioria não possui estrutura e público para a realização de longas e incontáveis lives e, por vezes, o próprio conteúdo não adequa-se aos meios digitais. Sendo criada apenas ao final de junho, depois de quase quatro meses de crise sanitária e econômica, a Lei Aldir Blanc* surge para auxílio emergencial aos artistas e espaços artísticos no Brasil. A demora da tomada de medidas em auxílio à classe artística reforça o posicionamento do governo Bolsonaro, que vêm apequenando o setor cultural desde seu princípio, em janeiro de 2019, com a extinção do Ministério da Cultura e seu consequente rebaixamento à Secretaria Especial.

Enfim, percebendo a importância de conversar com os que fazem arte para entender como esse cenário tem afetado sua vida profissional e subjetiva, reúno, aqui, entrevistas com colegas artistas que vivenciam esse momento e contam suas percepções acerca do atual cenário de crise sanitária e econômica.



A foto mostra Djenny em pé, vista de um ângulo acima dela, em meio à uma folhagem verde. Ela veste um vestido claro sob uma blusa verde.
foto por Moliane Cirilo

DJENNY:

Jennifer de Souza Teixeira (@jennninja no Instagram) é natural de São Bernardo do Campo/SP, mas mora em São João del Rei/MG desde 2015, quando começou a trabalhar com discotecagem, produção de eventos e como professora de idiomas. Ela conta que como a maioria das pessoas pensou, no início da quarentena, “que a situação seria rápida e passageira”. Com o agravamento desse momento, teve sua renda adquirida com o trabalho de DJ e produção cultural completamente interrompida, e cogitou voltar à casa do pai, em São Paulo. No entanto, contando com o seguro-desemprego que recebia e com o ganho das aulas de idioma que oferta, conseguiu permanecer na cidade mineira.

Sobre sua adaptação aos meios digitais, Jenny diz que “foi difícil e ansiogênico” produzir sua primeira festa virtual. Através da plataforma Zoom, a primeira Quizumba na linha aconteceu em junho, com entrada grátis e doações abertas, e contou com a presença online de 80 participantes, que acompanharam a apresentação de 9 artistas pretos independentes. Apesar do sucesso, a DJ relata, entre risos, que foi a primeira e última festa realizada nesse formato. Segundo ela, foi possível arrecadar 25 reais para cada artista ela não inclusa. A produtora também notou que o público, em geral, passou a perder o ânimo para eventos virtuais. Como alternativa, tem as aulas de idiomas, para as quais começou a criar conteúdo em sua página no Instagram (@jenny_idiomas), com o objetivo (conquistado) de aumentar o número de alunos.

Dos benefícios das conexões virtuais, a artista afirma que foi possível continuar participando do grupo de dança Didê Orí (@dideori) após um período de adaptação às plataformas de chamadas de vídeo, e que também conheceu um grupo de dança de Brasília,“o que não aconteceria fora da quarentena”. Entretanto, Jenny diz que às vezes prefere dançar e fazer suas atividades sozinha, e, entre risos, garante que não aguenta mais a vida online.

Quanto à Lei Aldir Blanc, Jenny realizou seu cadastro já há algum tempo para receber o auxílio, mas não houve nenhum retorno. A DJ acredita que o dinheiro da lei seria muito bom para a cena artística, mas, se dependesse apenas desse auxílio, estaria numa situação muitíssimo delicada como é para artistas que não possuem outras fontes de renda. Por fim, refletindo sobre a reabertura de estabelecimentos, a produtora acredita que a entrada em espaços culturais pode ser mais bem controlada do que em bares, e a não abertura daqueles espaços soa muito mais como um projeto político do governo contra a cultura do que preocupação legítima com a pandemia.


A foto mostra Juliana sentada, encostada em uma parede à direita do enquadramento. Ela olha para baixo em direção às mãos enquanto costura ou borda.
foto por Millena Fagundes

JULIANA TREVISAN:

Juliana Trevisan é natural de Tatuí, interior de SP, e reside em São João del Rei/MG desde 2015. Estudante de psicologia da UFSJ, está envolvida agora principalmente com crochê e bordados, que são fonte de 1/3 de sua renda. Ela também sempre esteve ligada à música, à escrita e à fotografia. Poder estar em quarentena “foi um dos pontos que permitiu que eu me debruçasse mais sobre a arte, que é o que tá me salvando nesse período, ela conta.

Nesse sentido, Juliana diz que consegue participar, por exemplo, de festivais de cinema que jamais imaginaria (como o Fantaspoa, o In Edit Brasil e a Horror Expo esta acontece agora em outubro). Além disso, ouve música todo dia e tem lido mais que nunca. A fotografia também tem aflorado para ela durante esse período de isolamento social, “como uma tentativa de ter novos olhares sobre o meu apartamento de 20m² e minha imagem”.

Quando questionada a respeito da adaptação de conteúdos para as mídias digitais, a artista está se propondo a fazer mais vídeos e outras novidades para a sua página de artesanato no Instagram, (@trevisarte), como o #DesafioCrocheTerror “mas isso só tá rolando agora, quase 7 meses depois [do início da quarentena]”. Quanto à escrita, sua frequência aumentou, mas o conteúdo mais pessoal ela ainda prefere guardar para si mesma; o que posta são os textos produzidos para diversos sites, como o da gravadora Rapadura Records, o Mulheres no Horror e o Delirium Nerd, além de conteúdos da zine Garotas no Ataque, publicação independente influenciada pelo movimento punk Riot Grrrl. Todos esses materiais podem ser acessados através de seu perfil no Instagram, o @trrrevisan.

A artista faz parte de alguns projetos musicais e “todos foram afetados pelo isolamento”. Desde a formação de uma banda punk feminista (a Kollontai), até as já existentes, como a Black N. 3 e a After Fascism Comes Aliens, todos os ensaios foram interrompidos. “É difícil ser baterista e não ter instrumento em casa [...], compor com improvisos em panela e copos é legalzinho, mas completamente limitado; na verdade, eu só pensei nisso, mas nem tive ânimo pra fazer a gambiarra”. A bateria de Juliana fica em Tatuí, por conta do espaço, e até um outro projeto (a Gaspacho), que já era realizado totalmente online com uma amiga de Juiz de Fora, foi interrompido porque Trevisan “não conseguia mais enviar baterias”.

Apesar do distanciamento, “acho que na Rapadura Records estamos conseguindo contornar melhor a situação”: fizeram um site, no qual realizam constantes lançamentos e publicam textos sobre música. “É claro que a produção de eventos, que era nosso forte, ficou impossibilitada e isso nos afeta mas manter as atividades online tá sendo interessante e divertido”.

“Acho que, como indivíduo artístico, estou mais consumindo do que produzindo. Ando meio cansada e isso me limita bastante. Às vezes vem uma onda de criatividade e me debruço completamente sobre uma criação, depois passo semanas só assistindo e ouvindo coisas e assim vai”, Juliana conclui.


*Nomeada em homenagem ao compositor e escritor homônimo, que morreu em maio deste ano, vítima do coronavírus, a Lei Aldir Blanc foi aprovada no final de junho pelo Congresso Nacional, mas regulamentada apenas dois meses depois. Foram destinados 3 bilhões de reais aos estados e ao Distrito Federal para a realização do auxílio do setor cultural, em caráter de emergência. Serão contemplados trabalhadores da cultura que não recebem o auxílio emergencial regular e não são beneficiados por programas governamentais, como o Bolsa Família. Além disso, espaços artísticos receberão de R$3.000,00 a R$10.000,00 para sua manutenção e também serão realizadas, a nível municipal e estadual, ações de incentivo à produção cultural, como a abertura de editais, prêmios, cursos e outras chamadas públicas. Mais informações sobre a lei podem ser conferidas nestes links: G1: entenda como vai funcionar a ajuda emergencial ao setor cultural e gov.br: Lei Aldir Blanc de apoio à cultura é regulamentada pelo governo federal


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Assim, fica evidente como o cenário pandêmico e um governo negligente forçam a classe artística a refletir acerca de suas formas de produzir e a reinventar e flexibilizar seus conteúdos. As medidas emergenciais para o setor da cultura chegam quando a emergência parece estar se “assentando” ou naturalizando. Como uma forma essencial de resistência (tanto coletiva, como pessoal e subjetiva), a arte se faz presente. Serão publicadas mais 4 entrevistas, com criadores das artes cênicas e das artes plásticas, refletindo sobre como todo esse cenário tem afetado sua capacidade de criar e de ser o que são artistas.


Estejam atentes ao que está por vir e nos contem como tem sido esse período para vocês, leitores, em relação ao consumo e produção de arte!


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