ARTISTAS NA PANDEMIA: O FAZER E O CONSUMIR ARTE DURANTE O ISOLAMENTO

[Jovipe, 19 anos, @j0vipe no Instagram]


Confira a continuação da série de entrevistas sobre como a quarentena e o cenário pandêmico têm afetado alguns artistas — agora com a atriz e criadora de conteúdo, Tarcila Tanhã e com o ator e dançarino, Lucas Casagrande Gaspar.

A classe artística foi uma das primeiras e mais prejudicadas pelo isolamento social. Artistas e grupos que dependem do contato direto com o público tiveram interrompidas suas atividades e fontes de renda — afinal, a maioria não possui estrutura e público para a realização de longas e incontáveis lives e, por vezes, o próprio conteúdo não adequa-se aos meios digitais.

Sendo criada apenas ao final de junho, depois de quase quatro meses de crise sanitária e econômica, a Lei Aldir Blanc surge para auxílio emergencial aos artistas e espaços artísticos no Brasil. A demora da tomada de medidas em auxílio à classe artística reforça o posicionamento do governo Bolsonaro, que vem apequenando o setor cultural desde seu princípio, em janeiro de 2019, com a extinção do Ministério da Cultura e seu consequente rebaixamento à Secretaria Especial.


Enfim, percebendo a importância de conversar com os que fazem arte para entender como esse cenário tem afetado sua vida profissional e subjetiva, reúno, aqui, duas novas entrevistas com colegas artistas que vivenciam esse momento e contam suas percepções acerca do atual cenário de crise sanitária e econômica.


VRÁ TATÁ

Tarcila Tanhã é paulistana e, atualmente, mora em Itapecirica da Serra/SP, a 30 minutos da capital — para onde sempre ia antes da quarentena. É formada como atriz desde 2006, pelo Instituto de Arte e Ciência (INDAC), e em Letras, pela PUC. Atualmente, está mais envolvida com as artes cênicas e audiovisual e metade de sua renda vem do “fazer” artístico.


“Moro num ateliê que foi uma herança que meu companheiro recebeu de um artista chamado Gontran Guanaes Netto. Esse espaço, antes de ser nosso, já era um lugar para celebrar a arte. Nossa missão é que as atividades permaneçam. E procuro utilizar de todos os espaços da casa para construir meu trabalho criativo. O palco é onde tenho ensaiado meu próximo projeto [...]. Além disso, realizo anualmente um festival de artes no meu ateliê, e esse ano estamos estudando a possibilidade de realizá-lo virtualmente”.


Tarcila possui um canal no Youtube desde 2016, o VRÁ TATÁ | traficante de cultura, no qual posta vídeo-poesias, resenhas de livros e de filmes, fatos sobre grandes artistas e notícias de arte e cultura. Com o início da pandemia, a atriz deu início ao projeto “Quarentena Poética”, uma série de vídeos nos quais interpreta contos e poemas de escritories como Ana Cristina César, Fernando Pessoa e Clarice Lispector. E foi assim que eu a encontrei nesse vasto mundo virtual: sendo jogado de um lado para o outro pelas sugestões dos misteriosos algoritmos, caí num espaço cheio de cuidado e carinho pela arte.


Nas palavras de Tatá: “eu senti que estava muito bem preparada para o que estava começando a acontecer. Vi muitos companheiros de trabalho, principalmente os de teatro, desesperados sem saber operar as ferramentas digitais e se sentindo impotentes. No meu caso, aproveitei para expandir meu trabalho e pensar em novos projetos”, e “na verdade, a pandemia não afetou profundamente meu trabalho, mas claro que, de alguma forma, me modificou emocionalmente e indiretamente mudou algumas coisas que produzo”.


Ainda no ambiente virtual, Tarcila realizou em seu Instagram (@vra_tata) a primeira Residência Artística #vratatarte, que contou com oito artistas independentes, saraus ao vivo e compartilhamentos do início de julho ao fim de agosto. Sobre as conexões e os encontros virtuais, ela afirma o seguinte:


“Jamais o contato digital vai ser igual ao presencial, mas acredito que, se soubermos usar o virtual, podemos ter experiências incríveis, conhecer pessoas sensacionais. [...] Procuro construir uma relação verdadeira com quem acompanha meu trabalho, tento estar disponível para conversar, tirar dúvidas, aprender. Se eu não estivesse predisposta a esta escuta, não teria começado a trabalhar com criação de conteúdo, porque acredito muito na via dupla. Acredito também que grande parte das pessoas estão querendo um contato maior com quem está do outro lado. O ser humano é social, é importante essa troca. E, em tempo de pandemia, isso é o mínimo”.


Também no Instagram, Tatá tem compartilhado seu diário de criação da peça “Que Deus venha”, que começou a escrever ano passado em homenagem ao centenário, neste ano, de Clarice Lispector (escritora nascida em 10 de dezembro, para quando a apresentação está marcada). No entanto, precisou interromper o processo devido a pandemia e a impossibilidade do teatro presencial. A artista conta:


Desisti de fazer porque, sem teatros, não vislumbrei nada. A minha ideia seria adiar para 2021. Mas daí comecei a ver alguns experimentos de amigos [...] e foi no dia que eu assisti à adaptação do Peso do Pássaro Morto, [livro] da Aline Bei, com a atriz Helena Cerello, que decidi que ia fazer a minha peça pela internet. Porque eu vi que a linguagem da peça [...] dialogava com tudo que eu fazia há tempos e não era um teatro filmado (que me desagrada), mas sim algo híbrido e que funcionou muito virtualmente [...] O que temos agora são experiências possíveis, pode ser uma coisa nova que ainda não tem nome, pode ser teatro filmado, pode ser um curta experimental... não sei. Ninguém sabe, é algo novo. E acredito que esse novo traz um potencial muito grande de criação. O nascimento deste novo não faz morrer o teatro”.


Depois de conversar com Aline e com Helena e de ter lido o livro “A arte de Pedir”, de Amanda Palmer, Tarcila resgatou seu texto semi começado e voltou a escrever:


“Demorei uma semana para escrever a peça que eu tinha em mente, que deveria durar algo em torno de 40 minutos, no máximo. O texto é uma mistura de trechos do livro Água Viva, de Clarice Lispector, com uma carta que escrevo pra ela contando como é que vivemos em 2020, numa pandemia. [...] Tem tudo no meu texto: Clarice, Eu como artista, o cenário político...”. Mais informações sobre a peça podem ser encontradas no perfil de Tatá (@vra_tata).


“Enfim, o meu trabalho como atriz foi brutalmente afetado, estou fazendo tudo mais sozinha que antes. Tenho ensaiado minha primeira peça solo e não tenho outros atores e parceiros por perto. É diferente, às vezes triste, mas desafiador, ela conclui sobre o fazer arte durante o isolamento social.


LUCAS CASAGRANDE GASPAR

Lucas é residente de Santa Bárbara d’Oeste/SP, onde também nasceu. Envolvido com teatro e dança, tem estudado ballet¸ jazz e contemporâneo no Laboratório da Dança (uma academia da cidade). Além disso, foi um dos fundadores do NAC, o Núcleo Artístico Corpus, com o qual está envolvido há quatro anos. Tanto os espetáculos realizados pelo NAC como os realizados pelo Laboratório da Dança têm importância substancial na renda do artista, que foi diretamente afetada pela pandemia e pela paralisação das atividades culturais. Assim, desde o início da quarentena, ele conta com o auxílio emergencial, com as próprias economias e com a ajuda dos pais.


Para o artista, que “estava muito saturado criativamente e não conseguia criar”, o isolamento foi um bom momento para descanso: após quatro anos de produção intensa, diz estar sendo interessante se “alimentar de silêncio, de escuta [...], e assistir a espetáculos de dança e a peças [online] que não conseguiria sem a quarentena”. Além disso, a “arte digital, se é assim que se pode falar”, fez-lhe olhar para outras direções, novas possibilidades.


Lucas retomou as atividades artísticas através de plataformas virtuais apenas depois de três meses do início da quarentena, perto de junho. Coreografado por Marcela Gozzi, participou do Projeto Incômodos com uma cena que aconteceu dentro do banheiro da própria casa. O espetáculo se deu através de uma vídeo-chamada no aplicativo Zoom. Nas palavras dele:


“Aprendi bastante [...]; ter esse espaço de cena é muito louco, porque eu não imaginava, então foi uma surpresa criar dentro de casa. Toda a energia da apresentação rondando o banheiro, o espaço - tive muitos momentos epifânicos, estalos”.


Além disso, criou duas cenas teatrais para o espetáculo “A Esperança Equilibrista”, uma parceria entre Laboratório da Dança e NAC transmitida ao vivo no Youtube, em que também participou atuando e dançando. Apesar disso, conta que “nada teve retorno financeiro. Tudo foi por querer estar em movimento, por querer fazer e apoiar a causa. Recurso zero, situações muito delicadas”.


Assim como Tatá, Lucas também sente que a esfera do online é muito diferente:


“Sempre que se fala [se é teatro ou não], fico estagnado, paralisado. Sinto muita falta de pessoas na minha frente, mas, como foi ao vivo, a gente sente a energia, a vibração, e por isso é diferente do cinema - que é gravado. Mas, pra mim, rolou um estranhamento, sim. Gosto de ter as pessoas ao redor quando estou fazendo, criando. Estar distante, não ter a troca física, é muito estranho. E me apresentar online dá muito mais nervoso, porque temos menos controle sobre as coisas. Mas passei por isso - e que bom que passei. Tive experiências ótimas”.


Com a pandemia, o Núcleo Artístico Corpus também foi muito afetado: “o grupo estagnou. Depois de 3 ou 4 meses, voltamos a conversar, junto do processo de criação do ‘A Esperança Equilibrista’. Agora, estamos criando projetos, inscrevendo oficinas para editais da Funart”. E, mesmo com toda a incerteza que a situação atual traz: “acho que a gente tem que tentar, que a gente tem que fazer. Acho que viver de arte é viver fazendo. Não tem outro caminho, o ator relata.


Nesse sentido, a Lei Aldir Blanc e os editais que estão voltando a sair têm impulsionado o retorno ao fazer artístico e as trocas com outros artistas. Lucas conta que tem se envolvido cada vez mais com questões de produção e gestão cultural — muito por conta da necessidade de aprender a como agir em meio ao recorrente cenário de crise do setor cultural. Ainda sobre a lei, o artista conclui:


“Ela é um direito [dos artistas]; temos que abraçá-la. Batalhamos por isso e é onde a troca entre nós acontecerá. E o governo demorou muito [para disponibilizar o auxílio]: os recursos estão vindo quando muitas coisas já têm voltado... então será que é emergencial? Tem o caráter [emergencial], mas não veio no momento da emergência. E isso tem muita relação com a estrutura de organização cultural do país, já que as políticas públicas e os incentivos são muito recentes, então esse momento de emergência só evidencia toda uma falta de estrutura, ainda mais depois da extinção do MinC [o Ministério da Cultura]”.

Tarcila e Lucas mostraram posicionamentos muito parecidos enquanto pessoas que trabalham diretamente com o palco e com o “ao vivo” e que foram jogadas, repentinamente, num completo caos virtual. Tatá, já com maior experiência por conta da criação de conteúdo para o Youtube e para o Instagram; e Lucas, confrontado com uma situação completamente nova e estranha — ambos se mostram interessados nas potencialidades que o digital tem a agregar de bom às novas experiências teatrais.

E você, que está lendo, como tem lidado com a transformação das maneiras de consumo (ou de fazer) da arte? Leu as outras entrevistas? Elas podem ser encontradas neste link 1- artistas durante a pandemia, com DJenny e Juliana Trevisan e na Revista Digital do Projeto Curinga!


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