As visões de morte em Midsommar


[Bianca B. Barboza, 25 anos, bacharel em psicologia]


[Aviso de gatilho: o filme tratado e indicado no texto a seguir é uma obra de extrema violência gráfica e psicológica, pode não ser recomendado para certas pessoas mais sensíveis com esse tipo de conteúdo]



Midsommar (2019) é o segundo filme da carreira do diretor Ari Aster, também autor de Hereditário (2018), e mereceu uma homenagem na cerimônia do Oscar, embora não tenha sido indicado. A obra é um terror psicológico construído de modo a gerar uma tensão crescente no espectador, mas com artifícios de fotografia bem diferentes dos filmes de terror tradicionais.

É evidentemente inspirado em O Homem de Palha (1973), pois se utiliza do choque entre diferentes tradições para evidenciar como alguns costumes de culturas diferentes podem ser considerados estranhos e até bizarros quando você não pode compreendê-los pela sua própria régua moral (majoritariamente judaico-cristã), sendo até mesmo considerado um remake. O subtítulo da tradução brasileira – O mal não espera a noite – endossa essa interpretação.

Com mais de duas horas de duração (quase três no corte do diretor!), o longa nos propicia um melhor desenvolvimento dos personagens pois, além de acompanharmos a protagonista se lançando no desconhecido em busca de um recomeço, os acontecimentos da trama nos conduzem a uma jornada de tomada de consciência até culminar no que podemos considerar uma superação catártica de traumas muito significativos. As cenas adicionais da versão não-comercial possibilitam um maior aprofundamento no relacionamento da protagonista.

Além de abordar os temas já citados anteriormente e nos colocar para questionar a nossa própria moral em temas mórbidos como a morte, o filme também nos faz pensar sobre a cultura americana do individualismo que é supervalorizada, a contraponto de uma religião milenar de culto à natureza e de cunho extremamente comunitário e integrativo com todos os elementais. Como já dito, o subtítulo brasileiro evidencia um posicionamento a respeito daquela cultura, mas essa visão é perfeitamente questionável.

Não é um filme para quem espera jump scares (pular de susto) ou cenas gore (sangrentas), pois além de utilizar planos abertos, vívidos, coloridos e muito iluminados pelo sol em um cenário bucólico, o diretor tem bom senso para mostrar cenas com sangue e violência sem superexposição. Por isso, algumas pessoas podem julgar que é um filme mais voltado ao suspense do que ao horror, até mesmo considerando que Aster nos entrega o enredo nas entrelinhas do filme. Somado a isso, atrevo-me a dizer que uma das partes mais assustadoras do filme não é o mal que não espera a noite chegar, mas sim os relacionamentos abusivos que são mostrados e as consequências que a falta de pertencimento e a solidão podem causar em uma pessoa vulnerável.

A longa duração da obra pode não parecer muito atrativa, mas é justificada considerando a imersão naquele lugar onde tudo – até o tempo – parece correr de uma forma própria. É um filme que não se encerra em si mesmo e é ponto de partida para várias discussões, além de ter várias mensagens escondidas (como as runas que se repetem, os nomes dos rituais, os desenhos mostrados). Vale a pena conferir! Ah! E para quem gosta desse estilo de narrativa, a HBO lançou em 2020 uma minissérie chamada The Third Day, que promove um clima semelhante.

ALERTA DE SPOILER

No primeiro ato do filme, conhecemos Dani, uma jovem universitária que tem problemas e tragédias familiares; seu namorado Christian, também universitário e um tanto perdido quanto aos seus objetivos, sejam afetivos ou acadêmico; e a turma de amigos de Christian, sendo Mark, um playboy na fissura de uma eurotrip (viagem à Europa) recheada de sexo e drogas; Josh, um aluno aplicado desenvolvendo sua tese de doutorado sobre a cultura escandinava; e Pelle, o personagem que move a trama para a Suécia convidando a turma de estudantes de antropologia para passar uma parte das férias de verão juntamente com a sua comunidade de origem e suas festividades de solstício de verão.

As cenas da parte inicial são as únicas que acontecem à noite, na quais podemos conhecer o background (história, passado) obscuro de Dani, seu desespero ao perder sua família nos primeiros minutos do filme. Também vemos sua solidão por estar em um namoro desgastado e abusivo, pois ela se sente constantemente culpada por tentar estar na companhia do namorado, que tenta afastá-la de diversas formas, além de manipulá-la, fazendo com que se sinta culpada em situações em que ele foi o causador do problema.

Após Dani embarcar na viagem, advinda de um convite de sinceridade questionável, a paisagem muda completamente para paisagens naturais muito bonitas. Nesse momento, temos um foreshadowing (demonstração) quando Dani tem uma bad trip (“viagem ruim”, sensação desagradável) por ingerir um cogumelo psicodélico. Também percebe-se um take (trecho, cena) realizado com um giro de 180° da câmera, acompanhando o carro se locomovendo na estrada em meio a mata, e somos sutilmente informados que a realidade será invertida de diversas formas.

A comunidade é apresentada de uma forma que nos surpreende pela aparente “pureza”, pois tem um tom angelical proveniente da tez muito branca e loira dos personagens, que se mostram extremamente gentis e acolhedores, além de estarem sempre em contato com elementos associados a afetos positivos, como flores, danças e diversas formas de arte. Isso tudo torna as cenas de sacrifício ainda mais chocantes, pois numa sociedade racista e cristã como a nossa, não se espera que pessoas com essa aparência realizem sacrifícios, atos muito criticados quando são realizados por religiões de matriz africana.

A visão de vida e morte apresentada por essa comunidade, apesar de ser muito diferente da que estamos acostumados, é bonita e poética. A crença apresentada é a de que a vida é como estações do ano, passando pelas fases de primavera, verão, outono e inverno. Ao final da jornada, aos 72 anos, os membros da comunidade entregam suas vidas com gentileza para que o ciclo continue (embora seja pulando de um penhasco) e as crianças que irão nascer herdam os nomes daqueles que se foram. O sacrifício é realizado com honra por aqueles que se voluntariam e com grande alegria por aqueles que presenciam o ritual.

A imagem é chocante, mas como dito por um dos personagens: “aposto que esse povo também ficaria chocado com o fato de colocarmos nossos idosos em asilos”. A reflexão que o filme nos desperta está para além de uma moral, mas sim para os significados da morte em uma cultura tão integrada empaticamente: aqueles que se vão cumpriram sua missão e continuarão fazendo parte do ciclo para que a comunidade continue prosperando em fertilidade e colheita. A dor é acolhida e validada por todos os presentes ao passo que a morte dos pais da Dani apenas causou sofrimento, abandono e um conflito sobre o que era de quem.

É possível rever e se surpreender com os detalhes e amarrações na trama, pois sabendo do desfecho podemos ver indicações sutis dos planos dos personagens e do papel de cada um dos convidados naquele festival. No fim, após todo o sofrimento, Dani ressignifica seus valores e finalmente é acolhida e encontra seu pertencimento e vivacidade naquela comunidade “pagã, de costumes primitivos e bárbaros”, mas que consegue dar o sentido para a passagem da vida para a morte que a sua sociedade de origem foi incapaz de prover. A partir do sacrifício do seu relacionamento, Dani renasce.


Segundo o diretor, Midsommar, além de ser uma obra de terror, é um filme ao qual as pessoas recorrem para superar o fim de um relacionamento. Já assistiu ao filme? Qual o impacto da obra sobre você? Percebeu algum detalhe que não abordei? Vamos conversar nos comentários :)



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