Bordas da pele


[Bianca, 25 anos, bacharel em psicologia]


Eu odeio ter um corpo. Ter um corpo dentro do sistema capitalista é uma experiência muito paradoxal. Preciso ter uma rotina para prover sustento para o meu corpo. Trabalhar e ganhar dinheiro para garantir a minha integridade física por meio de abrigo, alimento e demais suprimentos. O contraditório é que, para isso, preciso adaptar meu corpo ao sistema. Minhas necessidades fisiológicas são submetidas às necessidades da empresa. Menos horas de sono do que o desejável, idas limitadas ao banheiro, horários limitados para comer e dores causadas por movimentos repetitivos. Imagino como poderia ser mais fácil viver sob uma forma espectral na qual as vivências não seriam limitadas pela finitude da matéria orgânica. Imagine ser livre da dor, da fome, do frio e do cansaço? Quanto potencial… Ter um corpo determina grande parte da minha forma de estar no mundo. Para supri-lo, suprimi-lo.

Aprendi que sou um corpo. Essa é minha condição. Eu só existo enquanto um ser presentificado por uma unidade dual: mente e corpo. Ambos são a mesma pessoa, mas sob dois aspectos. Não são opostos. Não vivem em conflito. São complementares. Meu corpo tem necessidades e desejos. Minha mente, espírito, alma, seja lá como queira chamar esse elemento responsável pela nossa consciência, tem necessidades e desejos. Ambos se influenciam. Se não me alimento bem, se não durmo bem, meu corpo deprime. Se meu corpo deprime, fico sem energia, minha mente não funciona como deveria. Se não me exercito, se não me dou direito de ter prazer, seja ele qual for, meu corpo definha, fico irritada, não produzo. Se não amo com meu corpo, minha paixão esfria. Se não me permito desligar e perder o controle, me condeno à sobrecarga.

A liberdade de me desfazer no deleite físico é fundamental. Uma explosão de prazer é muito mais do que um mero hedonismo. O toque é a concretização da minha continuidade no outro. O prazer produz equilíbrio. O corpo tem ciclos vitais alinhados à natureza que, quando funcionam em harmonia, são terreno fértil para várias experiências transcendentais no campo espiritual ou físico. Faço mal a alguém se me entrego a algumas horas a mais de sono? Se me deixo comer por prazer? Se mantenho relações consentidas e esclarecidas com qualquer pessoa de igual desejo? Meu corpo não é um mero receptáculo a ser oprimido pelo lucro. Não sou um ser humano mais elevado se renego minha carne em favor de alguma recompensa metafísica. Eu sou meu corpo. Nada mais justo que usufruir das suas mais variadas capacidades.

As suas dimensões estão equilibradas? Alguma delas predomina nas suas escolhas diárias? Conta aqui nos comentários :)


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