Breve divagação sobre expatriação e ostracismo

[Bianca, 25 anos, apreciadora de temas sombrios]


Venho sendo assombrada pelo branco. A luz branca do computador, o fundo branco de um feed infinito, as paredes brancas, vazias. Há alguns anos quando andava pela universidade sempre me deparava com a pintura em letras garrafais “O branco enlouquece!”. O branco, reflete todas as cores. A folha em branco é o que melhor demonstra o quanto você sabe sobre um assunto. O branco padroniza. Alguns dizem que branco é proteção.


Eu desço dessa solidão

Espalho coisas sobre um chão de giz

Há meros devaneios tolos a me torturar”


— Música Chão de Giz, Zé Ramalho


Venho sendo assombrada pelo branco. A luz branca do computador, o fundo branco de um feed infinito, as paredes brancas, vazias. Há alguns anos quando andava pela universidade sempre me deparava com a pintura em letras garrafais “O branco enlouquece!”. O branco, reflete todas as cores. A folha em branco é o que melhor demonstra o quanto você sabe sobre um assunto. O branco padroniza. Alguns dizem que branco é proteção.


No meu espaço em branco há referências infinitas que pululam e meu horizonte é tomado por diversas histórias cujos personagens experimentam as diversas facetas da solidão. Histórias de horror em sua maioria. Gosto dos filmes e histórias de horror. Há pouco branco, pouca iluminação. Os medos universais são escancarados. Os terrores das experiências retratadas são exagerados, mas são fiéis aos nossos sentimentos irracionais e hiperbólicos.


Medo da morte, medo da falta de controle, medo da solidão, medo de fantasmas. Será que são reais ou são meus próprios demônios? De repente, me deparo com a figura da bruxa. É geralmente uma mulher que sabe mais do que deveria, que tem poderes inexplicáveis. É uma tão solitária quanto poderosa. É uma mulher segregada, mas por isso mesmo não submissa. Por vezes, é uma mulher que carrega na alvura dos cabelos profundos segredos sobre os seres.


Quantas injustiças cometidas a mulheres solitárias. Quanto sofrimento intensificado pela migração forçada, pela perda das raízes, pela rejeição a um controle ineficaz e sem sentido. Tanto conhecimento ancestral desprezado. Tanto poder natural abafado. Há ainda aquelas que fugindo das torturas, optaram por se proteger abstendo-se da própria língua, da própria cultura, do próprio povo e habitando uma outra terra sem referências. Párias.


Eu vejo o branco na minha própria casa. É um branco conhecido. Eu entendo a língua que se fala por aqui. Estou próxima da minha família. Conheço os estabelecimentos ao meu entorno. Me sinto em casa. O meu isolamento existe, claro. Mas é confortável. A minha solidão me acompanha, mas ela cede em meio aos meus pares. Somos semelhantes. Tenho segurança. É um privilégio.


A imagem da bruxa já se desfez e deu lugar a outra. Tão solitária quanto. Talvez até mais. No mundo, neste momento, há diversas pessoas buscando um lugar seguro para sobreviver. Essa sobrevivência muitas vezes nunca passará de uma mera subsistência. Pense em estar em algum lugar no qual ninguém te conhece, seus traços denunciam sua origem estrangeira, sua língua é diferente, incompreensível. Seus gestos, suas crenças, parecem tão distantes agora. Não há um guia. Há uma chance, sim. Mas há tantas ameaças.


Impossível que algo seja pior que uma guerra. Em uma guerra, uma luta que talvez nem seja sua, a morte é diluída no ar que se respira. Sua comunidade está sendo dizimada, seus descendentes talvez nunca existam. A história dos seus ancestrais será totalmente apagada a menos que você a leve para um lugar em que possa guardá-la. Há uma chance de sobreviver, se for possível fugir. Em troca dessa chance pífia provavelmente você terá que gastar todos os seus bens. Com sorte, estará acompanhado de algum conhecido. Mas será que é possível existir sendo invisível?

O exposto acima trata-se de algumas reflexões que tive assistindo os episódios dois e três da série The Mandalorian e também a primeira temporada de Desalma. Alguém mais já assistiu? Conseguiram perceber mais alguma experiência de solidão nos personagens? E na vida real? Conhecem alguém que foi arrancado das suas raízes de origem para sobreviver? Conta aqui nos comentários :)



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