Carta Proibida

[Alex Pereira Rodrigues (@alexesoh), homem cis, 28 anos, pardo, homossexual. Atua como escritor de ficção científica no gênero biopunk, professor, revisor, tradutor e estudante de Letras na UEMG. É redator no Projeto Curinga]


Aviso de gatilho [estupro]


O texto a seguir é fruto do exercício de produção de uma carta com a temática de violência e morte deste mês e é bom dizer que ele contém indícios de gatilhos mentais. A narrativa traz uma das realidades enfrentadas por muitos jovens, que é recorrente nos gêneros punks da literatura, a utilização de drogas na universidade e as relações que vêm destas interações. Assim, aos que entrarem em contato com a carta de Madson, é pedido que pensem nas diferentes formas de violência abordadas no texto.


Florianópolis (SC), 21 de junho de 2077


Meu caro Yahto,


É a modos antigos, eu sei, mas venho por meio desta te agradecer de alguma forma pelos ensinamentos e pelo espaço de convivência que de bom grado me cedeu enquanto sonhávamos em construir algum futuro.


Há tempos queria me ocupar em algo que considerava importante, sabe? Fosse a entrada em um vestibular ou um cargo público. Mas nunca me ocorreria aprender sobre partículas, quântica ou epigenética como algo que eu creria valer a pena. E foi assim que você me abriu o caminho pelo qual sou imensamente grato.


Infelizmente, fora dos âmbitos técnicos e formais, preciso te contar algo sobre a festa na república do Pedro, que decidimos ir pra comemorar o aniversário do Tiago, tá lembrado? A que você saiu mais cedo. Então... começaram com um pop eletrônico para animar o pessoal, seguido do dub e finalizaram com dark. Não preciso lembrar que tínhamos combinado que todos íamos experimentar o cogu que a Vitória ia levar pra gente, né? Você pode imaginar o estado que a gente já tava em cada um dos ritmos ali.


O que pesou, deu ruim, foi depois que a música acabou e a gente ainda tava no pique todo. As cores cintilavam que nem o neon na rua da tua casa. E a gente embalou em um fazer nevar e dar raio, parecia que a energia só aumentava. O chão parecia afundar. Em alguns momentos, eu pensei ter visto a Babilônia queimando. Se não fosse o Tiago beijando o Pedro, eu acharia que não estávamos mais ali. Mas, estávamos. E a seringa tava rolando. Minha cabeça queimava já, parecia uma ressaca, mas eu não queria parar. Ninguém queria. Nem nisso pensávamos.


Quando rodava pra gente, o espírito ficava leve, e as nossas mãos se tocavam como em anjos nos céus. Nós quatro já tínhamos tirado a roupa, o som voltou a tocar no quarto do Pedro, as luzes piscavam, a curiosidade ‘tava solta. E aí, eu apaguei. E acordei sangrando, todo sujo com uma gosma. Era porra, Yahto! Eu fui estuprado lá. Talvez a Vitória também, não sei. Eu levantei e fui pra casa me limpar, tava numa bad. Com medo. Eu recém tinha começado a curtir maconha, porque meus pais não curtiam que eu usasse. Fiquei aflito esperando o resultado do exame. Eu tirei uma amostra com o coletor daquele aparelho de testes de dst que tenho em casa, sabe? Deu negativo. Mas, mesmo assim. Não consegui ver mais ninguém. Desisti de ficar ali, cara. Era outro estado, outra coisa, e já não ‘tava começando bem.


Voltei para Floripa e procurei lembrar das coisas boas, de quando você me ensinou o básico da bioquímica genética. Aquilo foi muito bom pra que eu escolhesse o que seguir. Entrei em bioquímica forense na UFSC, faço doutorado aqui e já devo ir pro exterior neste inverno. Sempre vejo algum artigo com o teu nome citado. É muito bom saber que quem me ajudou a seguir ainda me dá base para continuar.


Assim, eu me despeço e agradeço a você. À terapeuta também [XD].


Júlio Madson.


A biotecnologia é um ramo que tem chamado muita a atenção dos investidores e capitalistas. Com tanto poder nas mãos, quantas drogas e situações podem violentar pessoas indiretamente baseadas nessa tecnologia? O texto não diz apenas sobre este ramo, porém, para além do que foi apresentado, a manipulação genética também se apresenta como uma forma de separatismo e distinção que logo mais serão meios normais advindos do Estado. Desta forma, cada vez mais estamos expostos à violência, externa e interna. Enquanto os mais jovens se encontram mais ingênuos e perdidos quando se deparam com exemplos como o de Madson, que foi do interior de seu estado para outro e entrou em contato com algo muito mais avançado do que poderia pensar. E ainda, se envolveu com pessoas que tinham uma quantidade de dinheiro que ele ainda não imaginava ser possível. A violência e a morte são tratadas como darwinismo social, ou seja, seleção natural, onde pobres, ingênuos e ademais serão colocados à margem, retirando-lhes sonhos, capacidades e oportunidades. Dadas tantas nuances, estendo o convite à reflexão destas formas de violência e morte escritas por outres curingas aqui no site.


4 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Mãos

Abraço