Conta-gotas

[Ana Junqueira, 'Sol', 23 anos. @restlesssol_ em todas as redes e @occulo_colore para fotografias. Formada em cinema e voluntária no Projeto Curinga]

|Texto revisado por Gabriela Silva e Maria Fernanda de Sousa|



Metaforizar o que não sei dizer diretamente é meu maior escape. Saúde mental, para mim, é férias. É chegar no destino e, eventualmente, perceber que preciso voltar para casa. É uma praia e uma tarde de sol.



Céu azul e tarde cor de mel. O calor que te bate nas pernas. Uma mancha no teto.


Tem dias que acordar parece esforço demais.


Abrir a boca e não sair nenhum som. A espera do outro lado. Sobrancelhas que te assistem, uma ruga entre elas, dó.


Um carinho, um cafuné. “Eu sei como é”. Não, não sabe.


Saúde mental é conseguir escutar uma só voz num mar de corpos que te grita pedindo socorro. Quem você salvaria?


Faz um tempo que não salvo ninguém. Eu e eu, num barquinho à deriva. Não estou pedindo ajuda também. Pesco meu peixe, filtro minha água, durmo com a mão sobre o rosto pra tapar o sol do meio dia.


Ouvir o vento e ele ser barulho demais. Ouvir seu próprio coração e quase enlouquecer. Por que é tudo tão barulhento sempre?


Sentir o cheiro de queimado e não levantar correndo para desligar o fogão. “E se…”. Comer as bolachas sem tirar a parte ruim.


“Preciso arrumar isso”, pensa, enquanto fica horas e horas a clicar botões sem sentido num jogo de celular.


E aí, um dia, tudo no lugar: três refeições feitas do zero, faxina na casa toda, café, yoga, hidratação no cabelo. “Estou curada!”


Não.


Repete-se o ciclo.


De vez em quando alguém escala barquinho adentro, sem sequer estender a mão para que exista ajuda para puxar as pernas. Sentamos ali, um de frente para o outro. Nenhuma palavra trocada, só a companhia.


O barulho não era tão ruim assim, afinal. Quanto silêncio faz agora.


Um jogo de espera. Quem vai pular primeiro? Por vezes sou eu. Por vezes, o outro. Mas alguém sempre pula.


Quando acho outro barco para escalar, não peço ajuda a ninguém, torço para estar vazio e, quando não está, espero.


A espera é a pior parte.


Pesco meu peixe, filtro a minha água. Espero.


Uma ilha deserta, que maravilha. Limpo a casa, cozinho o almoço e a janta, coloco o lixo lá fora. A ilha se torna pequena demais. E lá vou eu de novo para o mar.


Estou curada. Nunca estive doente. Sã, enquanto todos os outros são loucos.


Como se atreve o resto do mundo a não se sentir como eu? Eu? Logo eu?


Mas eu sempre soube que fui especial.


Uma ampulheta. Um conta gotas. Vira-me do avesso e começo do zero. Ao esvaziar-me, encho de novo.


Cai areia. Cai água. Caio eu. Que bela praia.





E para você? Sente que quando sua saúde mental está boa, é como se você estivesse de férias? Para onde tua mente te leva quando você está bem?

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