Da minha janela transborda luz

[Ana Laura Ferreira, 18 anos, Mulher cis branca, estudante de Psicologia]


E da janela do quarto, vendo uma vida de estrelas passarem por seus olhos, algo lhe dizia: Tá vendo aquele mundo lá fora? É seu, vai pegar.” (Caio Fernando Abreu).


[Imagem por Ana Laura Ferreira, 18 anos, mulher cis branca, estudante de Psicologia]


Depois que 40 dias se tornaram meses, os espaços começaram a parecer menores, as novidades tenderam a se repetir, meu lirismo se intimidou diante desse turbilhão e decidiu não mais se sustentar sozinho. Surgiram novas marcas em mim, algumas passageiras e outras fixas, como a máscara modelando meu nariz escondido, uma pinta embaixo do olho e a minha sombra deixando impressões não-digitais no meu corpo.


Do sétimo andar, tenho dormido com as cortinas abertas para, quando acordar, olhar para o mundo lá embaixo como se ele tivesse acabado de se despertar junto a mim. Sinto-o em cada parte do meu corpo e me reconheço parte dele. Assim, todos os dias, da minha janela transborda luz. Da minha janela, observo urubus voarem perto de mim, vejo pessoas conversando, ouço o barulho de carros se apressando aos seus destinos, sinto as cores e suas intensidades. Da minha janela, sei que o mundo é grande demais e que somos pequenos o suficiente para não nos darmos conta disso. Da minha janela, vejo uma flor florescer no asfalto, vizinhos trocando comida, portas abertas, cabelos em pé, arrepios singulares. Da minha janela transborda luz e eu transbordo o mundo.

Olhe ao seu redor. Quais sutilezas te fazem transbordar? Por onde você as enxerga? Tem deixado as cortinas abertas? Comenta aqui!



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