Desconforto sobre arte

[Ana Lua, 20 anos, mulher cis, branca, estudante de direito; revisora chefe do Projeto]; [Lara Goulart, 20 anos; Redatora chefe do Projeto e estudante de Psicologia]


Os dias pandêmicos vêm e vão numa tacada só. É a badalada do sino nos avisando que mais um dia se foi; é o corte frio e seco da foice solar dizendo que mais um dia igual está por vir. Qual será a válvula de escape e como conseguiremos conquistá-la?


[Imagem por Lara Goulart, 20 anos; Redatora chefe do Projeto e estudante de Psicologia]


7 meses se passaram, 214 dias desde o último suspiro livre de grades nos nossos narizes e bocas. 308 mil e 160 minutos vivendo o mesmo dia, da cama para o sofá, do sofá para a cadeira de home office e do ensino à distância, da cadeira para a cama novamente. Dezoito-milhões-quatrocentos-e-oitenta-e-nove-mil-e-seiscentos-segundos de… Sufoco. Não tenho ar. Quanto foi a perda neste tempo sem respirar fundo? Quanto foi ganho nesta pausa do mundo caótico em que já vivíamos, mas nunca percebemos?


As coisas que preciso fazer, os trabalhos que estão em atraso, os projetos iniciados e pausados e iniciados e pausados novamente, mais de 7 vezes em apenas 2 meses, as louças na pia sujas há tempos, que não pareço juntar a coragem para encará-las. As bagunças do meu quarto revirado, a limpeza obsessiva da casa que parece necessitada de um novo ar (já que eu não posso recuperar o meu), as roupas dependuradas de cabeça para baixo parecem trazer um novo tom para o meu mundo. Quem sabe se eu fizer igual a elas as coisas não façam mais sentido a partir de agora, já que estamos todes sem rumo e direção?


Uma luz parece definhar no fim do túnel, uma distração de tudo que me sufoca além da máscara. O “quê” artístico que mora em mim tenta reviver, escala pelas entranhas entrelaçadas entre a vida que um dia foi e as tralhas inúteis estáticas, fincadas junto às cinzas do que talvez tenha morrido para não voltar. A produção de obras de arte não parece do meu feitio, mas, novamente, por que não tentar coisas que obedeçam ao “novo normal”? Apesar de tudo, apesar da dedicação e comprometimento, minha arte fica presa e paralisada (criatura e criadora). Todas as coisas que antes me angustiavam voltam a ser protagonistas na minha tela, sobrepondo tudo o que havia criado, trabalhos já passados, projetos empoeirados, na louça tem pratos quebrados, o quarto continua revirado e o capricho por limpeza fora abandonado. As roupas não mais estão de cabeça para baixo, ou fui eu quem me perdi?

Você também sente que está perdido ou conseguiu se achar neste caos sem fim visível? A sua produção artística está sufocada igual nossos pulmões ou se libertou das amarras antes existentes?


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