Desculpa, Lara

[Lara Goulart, 20 anos; Redatora chefe do Projeto e estudante de Psicologia]


Percebi que já me violentei muito por felicidades ideais que ainda não chegaram - e, aviso, não chegarão. Percebi que fui muito orientada a conversar com a Lara do passado, perdoá-la por coisas que ela não sabia que errava. Ela não me ouve - eu a perdoei, mas foi difícil. Quem espero que ouça agora é a Lara que me revisita amanhã. Quero que saiba que te peço perdão e me comprometo com você.


Lara,


Você sabe quem fala do lado de cá, sou eu. Essa que há um tempo atrás você também era, mas no seu caminho ficou para trás. Se sua memória for boa, talvez ainda se lembre do que se trata esta carta… Mas, como sabemos bem que essas promessas costumam perder-se entre outras lembranças mais urgentes, trago lembrete: Vim me desculpar.


Tem muito sobre o que me retratar, mesmo assim me seguro à esperança de que você já tenha lidado e perdoado algumas dessas questões e que me perdoe pelas tantas outras que acabarei inevitavelmente esquecendo.


Em primeiro lugar, peço perdão por nos privar de momentos genuinamente felizes. Você sabe, daqueles nos quais era impróprio estar feliz, mesmo com o corpo vibrando serotonina. Perdoe-me por reprimir esses momentos. Por fazer com que ficássemos menos (ou nada) felizes para uma felicidade “geral” - e irreal, agora sabemos.


Espero, também, que perdoe meus impulsos de culpabilizar as felicidades daquelus ao nosso redor quando ela não me tocava em igual medida. Você, que me conhece melhor do que ninguém, tem consciência que nunca quis que fossem tristes! Não me julgue, se possível. É que, na dor, a busca por identificação muitas vezes me ganhou. Perdoe-me por mais isso.


Perdoe-me, Lara, pela culpa que você carrega porque eu deixei colocarem-na sob os meus ombros. Perdoe-me por reprimir seu corpo, suas ideias, seus trejeitos, crenças e condutas. Mais do que isso, perdoe meu maior erro: ter achado que a felicidade daquelu outre me contagiaria e a minha a elu, perdoe as consequências das culpas por não ser feliz simplesmente vendo elu feliz e por não ter conseguido contagia-le com a minha.


Espero, do fundo do meu coração, Lara, que você tenha mais felicidades e prazeres do que culpas e dores. Perdoe-me por nos culpar tanto, por aceitar tão pouco, por não ter sido mais feliz com as minhas felicidades.


Quero que saiba que sou feliz com as suas. E que eu te amo profundamente, cada dia mais.


Torço por nós,


Com o coração alegre

(e sem culpa),

Lara.

Convido-te a escrever também para seu eu futuro e, com isso, tentar desfazer-se de algumas culpas que não precisam mais ser carregadas, você topa?

Se quiser compartilhar a carta ou como foi a experiência, deixe aqui nos comentários.

Torço por nós!



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