Encontros com Thanatos


[Bianca, 25 anos, bacharel em psicologia]



Pode-se dizer que era algo com o que eu já havia tido contato por meio da ficção, textos acadêmicos e ouvido falar muito a respeito, mas ainda não a havia encontrado. Sabia sobre ela, mas não a conhecia. Não foi algo muito presente na minha história, até eu escolher me arriscar para ajudar outras pessoas a atravessar o momento em que ela aparece. E ela sempre aparece.


Eu comecei aquele trabalho um tanto quanto ansiosa. Sentia confiança por ter sido selecionada, por uma das melhores professoras, para o estágio mais concorrido do curso; mas, apesar disso, sabia que estava me lançando ao desconhecido. Me preparei teoricamente para tudo que acreditava que poderia acontecer e sabia que levaria algum tempo para me familiarizar com o ambiente, com as pessoas, com o vocabulário médico, entre outros aspectos da rotina hospitalar. Era tudo muito diferente do que eu estava acostumada.

Conforme eu me integrava ao espaço, ficou evidente que muito do que eu aprendi em sala de aula não se adequava completamente ali. Eu amava toda a teoria, mas aquelas pessoas hospitalizadas não estavam se deparando com a angústia das possibilidades ou outras questões filosóficas. Pelo contrário: estavam se deparando com a vida em sua forma mais bruta: dor, cansaço, fome, sono... e, claro, encarando a morte. A metáfora do leito de Procusto se tornou a mais pura realidade.

Mas até aqui tudo bem. Era um desconforto que gerava movimento, os desafios estavam dentro do esperado. Isso até começarem a aparecer momentos em que eu perdia o chão. Aconteceu pela primeira vezdurante o acolhimento de uma família cujo chefe estava ali internado. Durante a corrida de leito já vimos que o prognóstico não era nada bom. Utilizando as palavras do médico chefe da equipe: “se existe espaço para milagre na medicina é aqui”. O senhor idoso apresentava um quadro clínico delicado, problemas no coração, rins, infecção e várias comorbidades que, pude notar, eram totalmente alheias ao conhecimento dos familiares.

Durante a conversa, estava sendo apresentada a história daquele homem e do quanto ele foi querido pelos seus familiares. E, de repente, aconteceu. Apenas foi. Eu havia imaginado de um jeito completamente diferente... Foi silencioso e calmo. Os batimentos cardíacos foram parando até que cessaram e o respirador registrou sem qualquer alarde o último fôlego daquela pessoa. O sopro da vida foi devolvido. Os momentos seguintes foram conturbados e tensos, mas são um assunto para outro momento. A partida daquele homem me marcou muito, pois, além de ter presenciado a morte pela primeira vez, estive acompanhando a família dele em um dos momentos mais delicados da vida: a notícia de que a pessoa amada não estaria mais presente dali em diante.

Aquele pai, esposo, e sabe-se lá quantos outros papéis exercia, foi imensamente amado por todas aquelas pessoas que agora estavam assustadas e desesperadas, tomadas pela dor insuportável das primeiras horas do luto. Ele se foi envolto em um clima de paz, de amor e tranquilidade; mas ali, naquela hora, aqueles que ficaram estavam sendo dilacerados pela ideia da sua ausência. Havia muito trabalho pela frente.

Alguns dias após esse ocorrido, deu-se outro fato marcante. Este foi durante a corrida de leito. Como havia acabado de chegar ao leito daquele paciente, eu ainda não tinha informações sobre aquela pessoa, não além do que podia ver. A discussão sobre o paciente sempre começava com os resultados dos exames clínicos e eu ainda estava aprendendo o que queriam dizer. Até que o paciente parou. O momento da parada me fez pensar numa pesquisa sobre o sono que havia lido no primeiro período do curso. Por mais que existam sinais, ninguém ainda sabe explicar qual é o momento exato em que a pessoa dorme. Sabe-se sobre a vigília e as fases do sono, mas aquele momento em que se passa de um estado para outro nunca pôde ser captado. A morte me pareceu semelhante a isso. Em um momento, o coração bate, a pessoa respira. E no outro, não mais.

A questão é que também não é tão simples. Algumas pessoas têm morte encefálica e ficam por dias respirando, com o coração batendo, porém já não estão mais ali. A pessoa que antes era já não existe mais. E existem casos como este: o coração da pessoa não estava batendo e ela não estava respirando. Mas, por sorte, havia cerca de doze médicos à sua volta que começaram uma movimentação incrível para realizar a reanimação. Eu já tinha visto em filmes, mas presenciar a equipe médica realizando a massagem cardiorrespiratória tem um impacto indescritível. Eles se organizam de modo a revezar quem faz os movimentos em intervalos curtos, não chega a um minuto. E os movimentos são agressivos, às vezes algumas costelas quebram. Os médicos ficam suados, ofegantes e descabelados. Havia ali uma residente tão pequena, parecia uma criança... E que disposição ela apresentou para ajudar aquele homem. Todos em sincronia impecável.

A parada foi revertida. Não era o dia daquele paciente ir embora para casa, mas ele também não iria embora desse mundo naquele dia. Era um alívio: mais um trabalho em equipe bem feito, uma vida salva... Mas eu não era médica. Estive ali apenas como espectadora, afinal, até precisei me afastar para deixar um espaço mais amplo para a movimentação. Foi um grande choque. A vida é muito frágil, mas para mantê-la às vezes é necessária muita força bruta.


Ainda hoje não consigo entender qual foi a razão que me levou até ali, não naquele momento, pelo menos. Eu pensei que estava ajudando, mas hoje vejo que tudo aquilo me preparou para muito do que eu viveria depois, quando me encontraria com a morte de um jeito mais íntimo.


E você, já se deparou com este destino alguma vez? Conta aqui nos comentários.


12 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo