Eu fui

[Lucas de Oliveira Santos, 25 anos, @lucasant_os. Estudante de Psicologia, músico, homem cis, branco, bissexual]

|Texto revisado por Ana Lua|


Já faz alguns anos que estou vivendo essa coisa estranha de um lado para o outro. Entre as minhas viagens e estadias, acabei conhecendo muita gente... quero dizer, acho que conheci. Na verdade… acho que eu só entendi melhor como as coisas funcionam.


Foram duas semanas maravilhosas, principalmente porque viajar para onde não se pode encontrar ninguém conhecido é maravilhoso. Dá uma sensação de que não é necessário sustentar aquela personagem que as pessoas conhecem e, inclusive, algumas delas gostam. Foi mais ou menos assim quando eu me mudei para a cidade onde comecei a fazer faculdade. É ótimo ser carne nova, difícil é quando sua carne começa a ficar estampada, mas receber a estampa é uma delícia.


O fato é que não levou muito tempo até que eu precisasse contar da minha história para o guri que tive interesse e estava hospedado no hostel do lado. Adorei essa coisa de inventar memórias sobre mim. Não que eu visse algum sentido em ser falsinho para alguém — mesmo porque não contei mentira alguma — mas ter controle do que a outra pessoa pode saber é tão diferente, né? Tá certo que ele não estava afim de muita coisa além de me comer. No outro dia, pensei sobre isso: a real é que é bem mais divertido pensar que eu sou alguma coisa um pouco mais interessante do que essa pessoa que viaja para algum trabalho chato e paga de workaholic ganhando não muito bem. Acho que, no fim das contas, eu gosto mais de mim dentro das memórias que escolho.


Convenhamos… o Pedro nunca mais iria se lembrar daquela personalidade — melhor que não se lembre mesmo, inclusive porque gente emocionada fica chata. Eu não gostaria de saber dessa verdade sobre ele. Eu era o único que estava mais contente com essa coisa irrelevante. Acredito nisso, sabiam? Que, na verdade, ninguém liga, mas eu prefiro achar que sim.


Entrei naquele avião de volta para São Paulo, abri o clássico de Machado de Assis: Dom Casmurro. O livro é péssimo de se ler, primeiro porque a gente já conhece a história; em segundo lugar, porque aquele vocabulário antiquado faz tudo ficar mais chato. Entretanto, tem uma coisa mais legal nessa obra que escolhi carregar no voo de volta e vou te falar, já que estou aqui contando sobre essas coisas para você: já parou para pensar que a gente só duvida da traição de Capitu — contar a história de um livro de XIX não conta como spoiler, convenhamos — porque é o Bentinho contando a história? Como se aquilo que eu estou falando para vocês, aqui, fosse passível de ser verdade; ou como se tudo aquilo que a gente acredita ser uma memória fosse algo que, de fato, aconteceu.


Parece-me mais fácil conceber que o que de fato acontece é irrelevante. A não ser para mim, uma vez que a única coisa que tenho de mim é a memória; então, convenhamos, de novo: é muito melhor parar de se culpabilizar pelas impressões, não há muito o que se fazer… O que nos leva direto ao ponto de que nem fui tão ruim para o Pedro, depende muito mais do que ele vai lembrar…

Já teve a oportunidade de reescrever sua história de alguma forma? Não lhe parece estranho que tem muita coisa que depende, principalmente, do que você conta? Vem cá, você realmente concorda com o que eu disse?



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