Falha na comunicação

[lebiSca, 21 anos. Escritora de romance, cronicontos e poesia; mulher e sapatã; também conhecida como Débora. IG: @d_maranhess]

|Texto revisado por Bianca e Gabi Martins |


Tem dias que a fala falha e tudo se descomunica errado; siri vira siririca e enxada vira água, e eu já não entendia mais nada.


Tem dia que é complicado. Vários, na verdade. Uma vez eu estava falando de uma shitzu; amava aquela shitzu, linda, macia, perfeita. A dona dela se chamava Clara; em algum momento, eu disse:

- … e aí a cachorra da Clara…


Alguém, transeunte enxerido, ouviu só essa parte. Meteu-se a ir falar com Clara que eu estava chamando ela de cachorra. Telefone sem fio da discórdia: “ela tava fofocando, falando ‘aquela cachorra da Clara!’, viu? Pelas suas costas... Eu ouvi!”. E Clara ficou emputecida, quase perdi a amizade (anos depois, eu perdi de toda forma).


De exemplos, todo mundo tem mil. Eu ouvia aquela “Eu assim sem você” e para mim fazia muito mais sentido que Adriana Calcanhotto estivesse cantando “bochecha sem caldinho”. Não sabia quem era Claudinho. Nem Bochecha. Vai ver, falhas de comunicação passam por aí: esse não saber.


Houve algumas engraçadas, outras enfurecidas – gente que fala um com o outro e estão falando a mesma coisa, mas ainda acham que estão discutindo oposições. Isso você escuta em qualquer conversa de bêbado chato.


Lembranças da infância: uma vez falei que a mulher do siri era a siririca – tinha ouvido a palavra por aí, fazia sentido.


Outra hora, ainda quando eu era mais criança, um pedreiro me pediu uma enxada, eu voltei com um copo de água. Ficou olhando para mim por uns segundos confusos, até por fim perguntar, solicitante de ajuda: “cadê seu pai?”. (Pelo menos cuidou da hidratação.)


Aos treze anos uma amiga repetia insistentemente que gostava de mim. Gostava muito de mim. "Não, mas eu gosto de verdade de você."


- Obrigada, eu também gosto de você – eu respondia, amigável e nova demais para não estar no armário ou entender qualquer coisa.


- Não, Débora, mas eu gosto muito de você, entendeu? Eu gosto de você de um jeito especial. De verdade, entendeu?


- Você também é especial, é uma das minhas melhores amigas - ou seja, não entendi.


Ela saiu cabisbaixa e eu não sabia o porquê. Só fui entender isso quando lembrei da cena anos e anos depois. Xi, a bola fora.


Desculpe, não foi por mal: eu realmente não captei. (E isso vai se repetindo pela vida: das lerdezas da comunicação humana).



Ass.: lebiSca.

Às vezes é difícil se fazer entender. Diz aí: qual foi a falha de comunicação mais esdrúxula pela qual você já passou?

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