Mas não tinha pulso

[Lara Goulart, 20 anos; Redatora chefe do Projeto; estudante de Psicologia.]


A vida que caminhava, de repente

parou

e pôs pedra na engrenagem do que me move.

E eu? Eu fiquei parada e mexida, fiquei outra e fugi, também. Fiquei e estou reflexiva…

Duas pessoas andróginas e com cabeças pontiagudas, desenhadas em tinta preta sob fundo cinza claro, olham uma para a outra de mãos dadas. Entre seus peitos há uma corda bamba com outra pessoa igual, porém menor, se equilibrando.

Ah, esse nosso viver, que balança na corda entre lava e gelo, passado e futuro. Esse nosso viver, que mantêm-nos em arrepio na saudade do que foi e na ansiedade que será.

Ah, esses olhos pregados à frente e ao que passa, correndo, nos cantos não veem onde pisam. Pé a pé, nosso viver só se equilibra no agora.

Mas e se o agora não for chão?

Esse presente se desembrulha e cai e derrama e descompassa. Esse presente assusta, amedronta. E paralisa.

O olhar longe vê neblina, o que corria ao lado agora se mostra em câmera lenta. E a corda bambeia…

[Eu também]

E a arte, aquela coisa sem forma de toda cor que soprava-me ar aos pulmões, agora parece dançar arrítmica ao meu tom.

Em primeiro me deserda, falta. Sem onde derramar, encho-me e esvazio-me, sumo e tropeço no escuro de mim mesma. Até o vento mudar, e

e não ter

muito

ou nada

o que respirar

que fosse

arte

Medo, sim, susto. Agonia... ansiedade, até.

Mas não tinha

pulso.

E sem pulso o sangue coagula e também a minha arte se torna coágulo sem escoar, só eco, sem ar. Ah, aqueles presentes profundos de Morfeu ricos de púrpura, lindos e mágicos, tal qual só imagens inconscientes podem ser, transformados em pó. Um pó cinza que transparece ausência. Um pó que enche-me os pulmões enquanto vivo presa nas vestes de Sísifo ou me vejo curvada como Atlas, sob o peso de nenhuma dessas, mas da minha maldição.


Meus amores se amavam como em Magritte, meu tempo derretia os relógios, meu corpo remontava Abaporu e meu coração, nascido no deserto, fecundava em meio aos cactos.

Eu, todinha expressionista, sem expressão. A saturação duplamente me atingia e me expressava.

Ah, mas o não movimento girou de novo nesse tempo encostado e de repente me vi…

Vi-me Macabéa.

Profunda e afogada, a Louca Enforcada. Cheia. Será o não ser algo além do que sei que é? Será só outra existência?

E, de repente, saio da tempestade, ao mesmo tempo Ciborgue e feiticeira.

Escapo. Devagar e em pinceladas abstratas, por entre Montes de Feno sob o véu noturno das estrelas, até me encontrar entre

Narciso e Eco nas margens do lago, que me suga às profundezas do anzol de Hemingway. Meu enigma de passagem é o jardim de rosas vermelhas, onde a única que nasce branca sou eu, passo por ele derrubando a torre na toca do coelho. E renasço, como Vênus.

Mas da pérola trago Pandora e liberto em mim a fúria da Lua Negra. Ofídica, não mais faço pedra, agora meu olhar dá vida. E assim, posso ser árvore da vida e açucarar maçãs que jamais serão cachimbos (ou maçãs, de fato), tal qual crio a mim mesma nesta e em tantas outras ilhotas. Ah, eu sigo criatura e criadora, circeando Lua Nova e domando as feras que pari - e que sou e que já fui - em espetaculosos absurdos.

Ah, Orfeu! Caminho contigo a visitar Dante no frio e no vazio.

Mas voltamos. Haveremos de esquentar o mármore e trazer do Hades primavera. Reparo em mim mesma no Sol da Manhã à bater na janela do meu quarto e ouço tocarem sinos libertadores.

Reproduzo a fim de reinventar.

Resisto e

só assim

faço-me capaz

de seguir

existindo…

E você?

Onde parou? Onde mexeu? Tem também mais reproduzido do que produzido? Que artes carrega consigo em reproduções e ressignificações? Comenta aqui!


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