Memória de tom deselegante...

[lebiSca, 21 anos. Escritora de romance, cronicontos e poesia; mulher e sapatã; também conhecida como Débora. IG: @d_maranhess]

|Texto revisado por Gabriela Roberta e Juliana Verissimo|



Num cotidiano de memórias curtas, lembrar-se mostra-se como um esforço exigido para gozar de um efeito anti-repetitivo. Para serem lembrados ou para lembrar, existem ainda aqueles que se inquietam pela deslembrança?

- Escuta…

- Hm?

- Você se lembra?

Lera uma vez que os elefantes se lembravam de tudo. Já ela, nem tanto; mas de alguma coisa, lembrava-se sim, e queria saber quem mais ainda carregava memória. Assim, nas mesas de jantar, perscrutando familiares confusos pela sua existência infantil, perguntava:

- Você se lembra?

Não respondiam. Depois, andando nas ruas, uniformizada e com um cigarro em mãos, num futuro passado interpelava os transeuntes com o olhar:

- Você se lembra? Lembra, não lembra?

Silêncio, e o futuro continuava passado, passado futuro. Assistindo ao noticiário, gritava em um sussurro para todas as pessoas dentro dos limites que alcançava seu território:

- Você se lembra?!

E enquanto passava seu próprio café, de adultidão horrível, de filtro rasgado, pó queimado, erros em cima de erros, perguntava a si mesma e a todos:

- E aí, lembra? Será que lembra?

E aos quarentões deselegantes inquiria:

- Você se lembra?

Não lembravam, mas gostavam de encostar para dizer que sim.

Os velhos sequer respondiam. Ali, as pessoas eram muito diferentes dos elefantes: não se lembravam de muita coisa, a memória parecia curta. O aprendizado era mais complexo: não voltavam ao rio, de caminho decorado para cada estação; voltavam, sim, à seca. E, dentre orgias de egos excitados, juravam poder encontrar uma cachoeira messiânica. Ah, se esmiuçassem os naturais verdes-usos, ignorassem o azul que os limitava e o mudassem de cor! Se metessem palavras de ordem e cavassem por ouro suficiente...!

“Não. Idiotas…”, ela pensou.

Claro que elefantes não metaforizavam assim, como os egos humanos faziam. Mas se lembravam, ah sim, lembravam-se do que importava.

- E você se lembra?

- Eu...

Ergueu os olhos para uma estrela auspiciosa: será que se lembrava?!

- ... me lembro? Do quê?

Baixou-os. Nenhum progresso.

Dia após dia vigiava, em invariável ansiedade, as memórias ruirem na repetição de outras. Perguntava ao padre: lembra-se? Perguntava ao gay: você, você se lembra? Depois, perguntava aos velhos: você deve se lembrar! Não lembra? Perguntava ao caixa do supermercado, ao músico, ao trabalhador e ao descuidado. Perguntava ao seu próprio gozo e desespero, perguntava também ao analista. E um pouco de memória restava apenas ao fardado: acontece que ele não se importava, era ótima a deslembrança.

Ainda assim, ela insistia em escarafunchar memórias; às vezes, as suas próprias eram êxtase de rir e chorar ao mesmo tempo; as da vida pública eram angustiosas e ordinárias preocupações e dor. Deitava e produzia com inquietude suas lembranças repetidas oniricamente. Travessamente à desatenção que a ordenava, tentava não se condenar ao esquecimento; enquanto às vezes falhava, outras tantas era, ainda, um:

- Você se lembra?

Teimosia, inquietude. E de novo, para a vida:

- Você se lembra disso?! Pelo amor de Deus! Lembre-se! Use a memória antes de...

Mas ninguém se lembrava e todo o tempo tudo se repetia. Deselefantemente… Com o tempo, parou, também, de querer se lembrar:

- Lembro-me? De quê?

- Ass.: lebiSca




E você, acha que se lembra do mais essencial? Será que estamos deixando relegado ao esquecimento as memórias que nos constroem, podem destruir e reconstruir? Você… Se lembra? Ainda consegue fazer lembrar?

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