Memórias relidas e redigitadas

[lebiSca, 21 anos. Escritora de romance, cronicontos e poesia; mulher e sapatã; também conhecida como Débora. IG: @d_maranhess]

|Texto revisado por Ana Lua|


No dia em que terminei de ler “Vermelho Amargo”, vivi memórias que não eram minhas até cair nas minhas próprias. Entre velhos e novos, os tempos nos deixam as memórias enquanto a vida nos estranha; e memórias são bonitas – ou amargas – para ficarem onde existiram, não revivem. Mesmo assim, fazem reflexos.


Fechei o livro, encarei o teto, refleti para identificar o que sentia e não queria. O tal amargo vermelho do tomate pode não ser o que vivi – e não é, pois tive outras cores, outros amargores, outros sabores – mas foi inevitável adentrar nas lembranças pueris daquele alguém sem sentir aqueles tais gostos, cheiros, toques, olhares, medos passados e terrenos pisados, afetos e faltas sentidas.


Essas são aquelas coisas que te fazem depois devanear nas suas próprias. Memórias resgatam sentimentos e esses resgatam outras memórias. Sem cuidado, nos perdemos no passado. Ainda que não seja de praxe ou de meu agrado isso de nostalgiar, fui fisgada. A sobrinha, hoje com cinco anos, corre pela minha casa como eu um dia corri: quem pedia para Débora calçar o chinelo, hoje grisalhamente pede para que Ana Paula o faça. Memórias às vezes parecem repetições; ainda mais quando não se tratam desses chinelos ou corridas, mas de emoções que vivemos como gente graúda. Mas fique isso para o analista. Quando lá ressurjo, apareço, durmo, existo metade moradora e metade visita, minha casa – ainda chamo minha, a casa de minha mãe – parece já estar metade morrendo nas memórias do que um dia foi. Toda a família cresceu, uma parte mudou-se... Ou toda ela, mesmo: não digo necessariamente de mudar de casa, isso foi minoria; mas mudar de si. As memórias do que já fomos e tivemos nem sempre estão em conformidade com o que somos ou queríamos ser. E quais escolhemos acessar nem sempre são de nossa melhor escolha. Troco o “Vermelho Amargo” de Bartolomeu Campos de Queirós por um “Dessabor Verde-Branco-Translúcido” em meu prato; sem detalhar situações, mantenho no privado várias outras dores. Mas tive muitos risos e abraços. Muitos gritos também (de quê? Ah! Tantas respostas).


As situações íntimas familiares retalhadas na minha mente, recuperadas quando a literatura me levou a devaneios, são complexas demais para serem montadas pela memória dessa criança que vos fala e ainda tem medo do escuro. Mas às vezes me lembro de me lembrar... Eu, sempre desmemoriada, cabeça esquecida, distante...


Distante a cabeça ou eu própria? Hoje tudo é estranho – antes também era, mas outro estranho – e mais e mais eu estranho um pouco de tudo. Muito existe em função do que existiu ontem. Num dia de chuva o muro de arrimo caiu e tivemos medo. Que fim teria a casa? Uma parte da terra do quintal cedeu. Quase não vou no quintal. Também não brinco na terra mais por não ser aquela criança. Mas Ana Paula esteve por aqui uns tempos atrás, ela brincou, eu me lembro. Não existe mais o galinheiro das minhas lembranças. Não há mais os mesmos azulejos nos banheiros. O computador velho já morreu, Deus sabe onde foi parar o monitor e os CD’s e disquetes que usávamos. Muitas coisas mais mudaram nas pessoas. Mas não me verão pedindo para que nada volte. Memórias são bonitas ali onde elas existiram, e o que voltasse a existir desmanchado ficaria. Seria impossível... ou já realizado, por existir para sempre, fazer versões cutucantes, presente embrulhado no estômago doendo ou num sorriso dengoso.


Ouço ainda muitos passarinhos, mas ficam mais no vizinho. Os passarinhos cantam muito pela manhã, mas às vezes se calam; não me lembro de que se calassem na hora do almoço, essa hora específica. E, nessa hora, ao invés de ouvir no vizinho o papagaio de dona Onercir (há muito se foi daqui e até hoje não sei escrever seu nome) ou – já mais tardiamente – os risos do meu primo e exclamações da minha tia, ouço ali do lote vizinho um velho que se mudou para cá há pouco tempo e espirra – ou tosspirra – forte, de um jeito berrado. Ele faz isso várias e várias vezes seguidas, e por longos minutos. Deve doer. O velho deve ter muitas memórias. O muro dele também caiu: mais uma para ele contar, mas acho que não por muito tempo. Ali, no calar dos passarinhos, o tosspirro doído do velho me lembra doença e morte, fim da vida na velhice. Desculpe, não quis associar assim. Ele parece feliz com o quintal e a jardinagem, não acho que seja um velho saudosista.


Estranho. Não sei seu nome. Não sou boa para memorizar nomes, só histórias. Tenho receio que eu o aprenderia e ele morreria em breve, sem que nós tivéssemos nenhuma história. Estou meio melancólica. Até gosto daqui e das memórias, mesmo que tudo tenha mudado. Não deixo os amores e nem deixo de viver a vida, tudo bem, a vida é assim. Ainda temos amor e ainda rimos! E brigamos. Sorri. Gosto de fotos e memórias, detesto saudosismo barato. Gosto da minha vida viva como é hoje, identidade, assino embaixo do que tenho agora.


O que tenho agora vem e passa antes pelo que tenho na lembrança. Assim também deve ser para o velho. Ana Paula ainda tem poucas, mas as poucas são infinitas: talvez a criança consiga memorizar até mesmo o futuro que vivem lhe repetindo. Depois vai esquecer as que tem e dar lugar a novas versões. E também os velhos vão lhe contar histórias de vida.

Cada tempo com suas tempices: hoje amo, ontem amei diferente. O mesmo para dores e amargores. Rabisquei anotações no livro inteiro, isso é um hábito do hoje que me lembro de ter abominado no passado. Mas há coisas parecidas. Bartolomeu Campos de Queirós, no amor infantil que teve, no desamor, nesse seu vermelho amargo, mexeu um caldeirão de lembranças. Quando rememoro não vejo saudosismo barato: assim é a emotividade autobiografada do memorialístico e da vida naquele livro. De tudo aquilo saboreei amargores mas vi alguma maciez; não agora bem dizer onde, mas vi, sei que ele teve as dele.


Cada tempo com suas tempices, lembranças; só não nos esqueçamos do que nos ocupa e monta.

Ass.: lebiSca



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