Nesse Português Correto

[Ana Junqueira, 'Sol', 22 anos. @restlesssol_ em todas as redes. Formada em cinema e voluntária no Projeto Curinga]


Não queria introduzir esse texto, mas acho que se não o fizer, a frase final acaba indo muito ao pé da letra. Aqui tenho um pouco de tudo, esse tema, querendo ou não, acaba sendo um dos mais próximos de mim e do que venho oferecendo ao Curinga até agora. Por ter tanto de mim, acho que fico hesitante em me expor com clareza, então fica esse embaralho todo. Quero falar das línguas que falo, e de como com elas, acabo por não falar nada. Um dia aprendo a ser mais transparente, até lá, que o embaçado reine.


Língua-chicote

Estrala

Sacode

Por onde passa uma ofensa

Repensa

O que realmente queria dizer.


Tanto a se falar e nada por ser dito. Um dia me calei, acho que ninguém notou. Eu, que sempre fui de muitas palavras, me vi perdendo até o beabá. Tem grito preso na garganta até hoje. Descobri que de nada adianta saber várias línguas se nenhuma carrega na sua construção as fundações para que eu me despeje. “Nossa, como você tá quieta hoje”, meu amor, estou quieta há anos. Estavam tão preocupados em me lembrar de quem fui, que se esqueceram de olhar quem eu sou.


Hoje misturo infinitivo e gerúndio conforme o público. O fatalismo e a esperança. O que sei e o que finjo que sei. Pareço muito maior do que realmente sou.


“Quantas línguas você fala?” Muitas, e ao mesmo tempo, nenhuma. Não sei todas as palavras nem da minha língua materna e, mesmo as que sei, mal sei usar. Por obséquio, pra uns, é o por favor de outros, então por que um pesa mais?


Que língua falas tu?

Que não é a mesma que eu?


Me lembro até hoje da primeira palavra que li sozinha, o título de uma revistinha, e minha mãe mal acreditou. De não ler nada, em um dia passei a recitar tudo que me colocavam na frente sem dar sinal de que um dia não soube ler. Acho que eu estava esperando o momento certo pra mostrar que sei. Ainda espero.


Burrice é elogio. Ninguém espera nada de quem não sabe de nada.


Sai pra lá com esses neologismos, essas parábolas e essas alegorias. Vamos direto ao ponto, por obséquio, no português mais claro e correto que um dia aprendes-te a falar.


Quem fala errado é ocê, que insiste em usá o que ti insinaro na iscola.


Apaga

Retrata


Se não entendeu nada,

Entendeu tudo.


E você? Consegue se comunicar usando as palavras que conhece, ou sempre parece que falta uma para completar a mensagem? Já parou para considerar o valor que você dá, que nós damos, ao português correto, mesmo quando ele se torna infinitas vezes mais difícil de se compreender?

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