O Nome

[Lucas de Oliveira Santos, 25 anos, @lucasant_os. Estudante de Psicologia, músico, homem cis, branco, bissexual]


Uma das principais angústias que eu acredito existir é a angústia da ausência. O nada é uma das piores coisas, eu acho. É ótimo se sentir feliz com as coisas, mas, mesmo quando acontece algo ruim, a tristeza é ruim, mas ela tá ali pra ser vivida; a gente ainda sabe do que se trata. Mas, não tem coisa pior do que não saber o nome que se dá a cada coisa… é esse o meu ponto de vista, pelo menos.


— Mamãe, tira o sucesso da laranja

— O excesso, filho? A mamãe vai tirar pra você

Era a sobremesa favorita dele, mas ele não gostava de morder o bagaço, pedia pra mãe tirar o excesso da fruta, de uma forma que a laranja coubesse na boca do garotinho de 3 anos que a chupava de forma a encher a camisetinha do Pernalonga com manchas do suco da fruta. Quem disse que isso era preocupação? Aquele corpinho era todo encaixado naquele mundo que ele tocava. Quem liga para o que vão pensar? Quem acha isso importante? Importante, mesmo, era laranja sem “sucesso”.

Nem sempre tinha algum amigo para brincar dentro de casa, muito menos na rua. Mal sabia do que se tratava cada coisa, mas, ainda assim, conseguiu criar seu amigo imaginário ao qual deu o nome de “Paulo”. Nome todo cheio de afetos, não só por ser seu amigo, mas porque gostava de pensar que era ele quem escrevia as cartas para seu time do coração, o Corinthians, que eram lidas durante aquela falação chata aos domingos. Inclusive não entendia o motivo pelo qual as pessoas que torciam para o São Paulo brigavam com os corinthianos:

— Mas, Paulo, a gente não é amigo?

— Mais que amigos!

Era ele, mesmo.

Murilo, aos três, já falava muito bem, tinha boa dicção e gostava de interpelar os outros nas ruas quando estes jogavam algum lixo no chão, por exemplo:

— Você sabia que se o lixo for parar nos bueiros pode causar uma inundação? O lixo na rua pode entupir os bueiros e a água não consegue sair por eles!

— Ah! É mesmo? Qual seu nome? Quantos anos você tem?

Fazia ‘assim’ com os dedos indicando ter três anos. E foi depois de um episódio desse, numa caminhada dessas durante a tarde que, logo que chegou em casa com uma espada de brinquedo que tinha acabado de ganhar de aniversário (dentre os outros brinquedos), recebeu uma notícia bastante triste.

Ele tinha um tio que sofria de alguns transtornos mentais e lhe era super carinhoso; na verdade era o melhor amigo do tio, apesar de o tio não ser exatamente seu melhor amigo. Há meses ele se sentia mal por não poder encontrá-lo, não sabia exatamente o que estava sentindo, mas era vontade de vê-lo, pelo menos. Foi quando sua mãe chegou com carinho e disse:

— Filho, lembra do seu tio José?

— Que que tem ele?

— Aconteceu uma coisa, ele acabou de virar uma estrelinha lá no céu. Foi morar com papai do céu.

Pensou: Mas quem é esse meu pai do céu e por que meu tio foi pra lá e não está aqui?!

— Ele foi embora?

— É, filho, a gente diz que, quando isso acontece, a pessoa faleceu.

— Ele não volta mais?

Sua mãe abraçou com força, porque o menino era super próximo do tio, mas ele só havia ficado sem reação; sabia que o tio estava doente, mas... “falecer”; aí era outra coisa.

— Ele não vai voltar??

— Você vai ficar com saudade?

Era isso. A primeira vez que Murilo tinha colocado no mundo a sua saudade. Dali em diante, sentir o que sentia era como sentir saudade do tio José. Mas foi só a primeira de muitas coisas, ruins ou boas, que Murilo viria a sentir e aprender a dar nome.


Já sentiu essa sensação de não ter condições de dar nome às coisas que sente? Conta pra gente como é essa sensação. Que outras formas você tem de expressar o que sente? Certamente, Murilo não tinha muitas ferramentas aos 3 anos; mas, quais as melhores formas de se transmitir o sentimento pra você?

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