O que tem de beleza no sofrer?

[Ana Junqueira, 'Sol', 22 anos. @restlesssol_ em todas as redes. Formada em cinema e voluntária no Projeto Curinga]


Trago aqui uma indagação: quanto da dor você acha bonito? Quanta dor, quanta violência te move? Qual a necessidade dela?


Não vou te dar uma resposta para nada disso. Aliás, estou realmente perguntando. Ao pensar em arte clássica, por exemplo, quantas imagens de guerra te vêm à mente? Quantas obras sacras não retratam a dor?


O fato é que nós, seres humanos, sempre achamos a dor algo bonito de ser visto, celebrado e sentido. Não só a dor, mas a violência.


Temos todo um gênero cinematográfico para esse fetiche bizarro, joga aí no Google: "filme de terror body horror" (horror corporal). Aparece uma lista gigante de filmes mundialmente conhecidos. Slasher, drama psicológico, suspense, até mesmo filmes de comédia muitas vezes usam a dor como a punchline (ápice) de uma piada: um soco nas bolas acidental, alguém que cai de uma escada, um personagem que passa o filme todo com o braço engessado ou um olho roxo.


E eu não estou a especificar nada aqui. Estou jogando exemplos e mais exemplos, porque a gente tende a achar que a violência só existe no noticiário. A gente ouve notícias de tragédia, de gente morrendo, de um assassino em série e pensa: Que horror”, mas continuamos lá, atualizando a página para ver se saiu alguma notícia horrível nova. E aí pensamos: “nossa, preciso desanuviar” e vamos dar play em uma série de ação com tiroteio em todo episódio.


É uma dessas ironias.


Não estou aqui para dizer o que é certo ou errado. Eu mesma não sei. Essa constante exposição ao violento nos torna mais conscientes ou mais anestesiados? É necessário ver tanta tragédia, tanta dor?


A violência move toda uma economia. Já dizia minha avó: se torcer o noticiário da Band, escorre sangue. Mas, ela sempre continuava lá com a Band ligada na TV.


“Ah, mas a arte tem que retratar a realidade! Temos que mostrar o que acontece no mundo real!” Não discordo de maneira alguma. De verdade, a arte está aí para termos espaço de explorar o horror e o magnífico. Mas isso não significa que ela se torne imune a problematizações.


Eu amo um bom filme de serial killer (assassino em série), com sangue voando na tela, gente correndo, gritando e morrendo de maneira bizarra. Acho divertido. Não defendo que serial killers devam ser algo comum na vida real. Acho que temos sim que discutir que todo o gênero é profundamente machista, e surgiu com resposta à segunda onda do movimento feminista. Uma coisa não anula a outra.


Existe prazer no horror. Mas também existem horrores e horrores, momentos e momentos.



Não estou aqui para trazer respostas. Estou aqui para instaurar dúvidas. Espero que você, que lê isso, fique remoendo as violências que consome com prazer diariamente. Considere esse meu pequeno momento onde teu sofrimento é minha alegria.


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