Os nomes que me deram

[Ana Junqueira, 'Sol', 22 anos. @restlesssol_ em todas as redes. Formada em cinema e voluntária no Projeto Curinga]


Hoje não estou para palavras difíceis. Não estou pensando em política ou religião ou filosofia ou o caralho a quatro que dizem por aí que preciso pensar para existir. Hoje eu simplesmente sou.


E eu sei que existir é ato político e que existir em sociedade é, queira eu ou não, acatar a ela. Mas hoje não quero. Hoje quero arrancar a roupa perto de uma ribeira e sentir o sol na pele e não tentar metaforizar o som da água ou o canto dos pássaros ou a brisa que sacoleja as folhas.


Um dia nasci. Sai escorregando pernas abaixo da minha mãe e abri o maior berreiro. “Ser" nem sempre é fácil e acho que eu já sabia. O doutor gritou “É menina!” e logo ali, com segundos de vida, eu já era uma coisa toda. Carregada de tantas outras coisas. Que continuo carregando, inclusive. Que coisa!


Não estou aqui para dizer que não tem isso de “menino" e “menina”. Às vezes até tem, sei lá. Estou aqui para dizer, que disseram que sou menina e desde então tenho sido isso. Também disseram que eu era inteligente quando eu era criança e estou tentando entender essa até hoje, já que para somar ainda tenho que contar nos dedos.


Um dia eu beijei outra dessas coisas que eles chamam de menina também. Disseram que eu era lésbica. Mas aí eu já era um pouco mais velha e não aceitava mais tudo o que diziam que eu era de cabeça baixa. Depois dessa coisa-menina, acabei beijando uma coisa-menino e gostei também. Aí explicaram-me que isso era essa outra coisa completamente diferente chamada “bissexual”. Soava bonito, então me deixei ser isso aí. Tudo para dizer que não sou de rótulos. Encaixotam-me desde muito antes de qualquer um me chamar de esperta, porque eu sabia que a área do quadrado é o produto entre seus lados. Fiz linha aqui, ali e acolá porque me disseram que era assim e esqueci de instalar uma portinha nessa salinha fechada de quatro paredes que mandaram-me habitar.


Se me perguntam, respondo, com a fichinha completa que todo mundo parece que tem memorizada: meu nome, apelido, idade, claro. Sexo, gênero, sexualidade, o básico. Meu curso e meu signo, nem sempre necessários, porém apreciados. Mas quantas dessas coisas sou mesmo?


Defendo a liberdade dos meus para se chamarem, e serem, e fazerem, e foderem como quiserem, quem quiserem, se quiserem. Penso e estudo e ensino para levar para os que não são meus todos esses outros mundos e caixinhas e realidades que existem para fora das quatro paredes que conhecem.


Mas nunca fui de concreto. Sempre fui do pé descalço e do canto do galo.


Se só posso falar do que sou, só posso falar do que sei e o que sei é: nunca precisei metaforizar para existir. Nunca precisei da política ou da religião ou da filosofia. Eu abri os olhos e eu já era muitas coisas que eu nem sequer sabia pronunciar com minha língua boba de infante. E se eu existo, em cima de tanto e em baixo de tanto, sei que existem outros como eu.


Se me percebem diferente do que percebo, problema deles. Em algum momento no passado próximo, cresci dentro de mim. Ocupei todos os espaços e expulsei para fora o que não era meu. Aqui tem lugar para só uma pessoa e eu decidi que quem ficaria é quem sou quando não estão olhando, quando não estou explicando, quando só arranco a roupa e me sinto em casa na minha pele. Nunca tinha me sentido inteira antes, mas não posso dizer que desgosto.


Descobri que sou feita de argila e desejo, de gordura e ossos, de tinta de cabelo.


Sou, mesmo quando não tem ninguém para dizer que sou.


E você? Que nomes te deram e que nomes você se deu? Você aceita tudo que te chamam ou está ainda procurando o que te nomeia realmente? Gosta desses nomes todos ou prefere não ter nome nenhum? Conta pra gente!

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