Relicários e memorandos


[Lara Goulart, 20 anos; Redatora chefe do Projeto e estudante de Psicologia]

|Texto revisado por Ana Lua|




Têm histórias que fazem memórias e outras que são feitas delas, essa é as duas coisas.



Em janeiro, Julia passeava as mãos pelos papéis gastos dentro da lata de biscoitos da avó. Corria os dedos pelas bordas carcomidas, sem se importar com as traças, mas tirando-as uma por uma de lá, pois sabia que, se soubesse das traças, dona Carolina nem dormiria. Tinha fobia de bicho, mas nenhum medo de nada. Não podia nem pensar em sujeira, poeira ou "velheira", como dizia, "a vida já era feia demais pra gente deixar o mundo também ser".


Seu Alfredo, do sofá, olhava fixamente a parede com o quadro torto. Logo seria hora de reclamar da tortura do quadro e da tontura que lhe dava e Julia acertaria mais uma vez o equilíbrio da alça no prego, até ficar reto. E Alfredo entortaria a cabeça até a hora de dizer que a cabeça estava torta e tonta e que era preciso acertar o mundo para poder enxergar, então Julia entortaria o quadro até a reclamação seguinte.


Numa das últimas fotografias que repousava na lata, sépia de bordas brancas amareladas, Julia reconheceu Maria, que lhe sorria bonita e jovem. Nunca a vira tão fresca, pensou. As alças finas que lhe caíam pelos ombros ditavam que o ar deveria estar quente e úmido, como costuma ser Salvador. Mas Maria sorria doído um sorriso enorme e rasgado na cara. Olhava nos olhos de Julia como quem a reconhecesse de longe, mas não existia.


Ao lado de Maria, posava perdido o senhor Caique de Albuquerque, que gostava do nome pronunciado inteiro para o diferenciar do primo-irmão desviante e desviado da família que resolveu virar artista, Caique Villa. Na foto ainda era quase-juíz, mas trabalhava não-sei-onde que lia documentos importantes do governador e recebia telegramas para pôr em relatórios secretos. Não falava muito, sorria menos ainda. Contrastava Maria como um corvo entre pardais, ela dava o contorno perfeito à cidade calorosa e receptiva com seu corpo mole e jeitoso e ele pisava duro no terno escuro que manchava o cenário.


Dias antes havia passado a virada de ano sentada no quintal. A maquiagem se desfazia com o sorriso, o peito ardia em saudade de Carolina, a ânsia pelo colo da avó a fazia olhar os fogos no céu vendo outras coisas. Tinha a sua frente a casa de bonecas da infância, o pote de biscoitos, as agulhas de crochê. Pisava na grama verde na manhã de colher frutas da horta e sentia o vento fresco do mar. Ela se fazia presente em tudo, mas Júlia achava desleal que os fogos de artifício se desfizessem em milhões de estrelinhas e a vó tivesse virado uma só.


Era dia de festa e, por isso, tentava muito duramente celebrar algo que nascia, mas seu coração pesava nas lembranças, o dedo enrolava na medalha no pescoço e os olhos se faziam mar do jeito que Carol também fizera. Entendeu então que, como ela, devia agora pegar jangada e seguir.


Quase um mês antes, com dezembro iniciando e o cajueiro desabrochando as flores, Carolina estava sentada no jardim. O clima nordestino lhe batia às bochechas rosadas, cerrava os olhos com a umidade. Mas o calor era tampado à pano: usava um lenço leve sobre o tronco e perdurava o olhar no mar.


Maria chegava na casa da mãe com sacolas e mais sacolas da feira. Julia respirava fundo por ver a mãe - como só ela se chamava, já que para Julia era só "Maria"- que agora parecia invadir aquele espaço sagrado da família-de-vó-e-neta com suas frutas frescas e queijos, no plural. Incomodava a disposição daquela mulher de desfazer a vida simples e fácil dela, depois de anos sumida pelo mundo seguindo o marido em aventuras de porta papel.


Seu Alfredo, sentado no sofá, contava nos dedos quantos peixes tinham no mar. Segurava um colar de contas enrolado entre os pulsos e dizia que ouvia a voz de Iemanjá conversando com os seres ultramarinos, podendo assim contar quantos existiam. Já contava seis tubarões, dois peixes palhaços, quatorze tartarugas e perdia a conta das carpas que se reproduziam feito praga. Alfredo recusava comida e pedia tudo em canudos: estava insistindo que era assim que sabia ser velho, vivendo com preguiça de tudo. Ele já confundia as mulheres da casa, Carol, Maria e Julia eram, por vezes, uma só sob seus olhos. Mas não media carinhos e carícias de marido, pai e avô.


Seu Alfredo gostava de contar histórias e falava muito de deuses e do universo. Dizia que ser de verdade era muito difícil para seres de cera e seiva como os humanos, filosofava a realidade e sabia diferenciar no mundo o amor da maldade. Nas histórias, sempre alguém andava por caminhos que levavam a encontrar divindades.


Na sombra cheirando a caju, Carolina cheirava a maresia nos cabelos de alecrim. Julia se aproximou e sentou aos seus pés, esperando o cafuné dedicado dos dedos longos da avó. Não foi o que ganhou: Carol perguntou quem ela era. No baque, esqueceu-se de chorar e de responder. Levantou e foi parar, sem querer, nos braços da mãe. Quem era ela? A neta que criou como filha, o amor que conheceu da vida, a cuidadora que lhe segurava as mãos ao acordar. Mas Carolina perdera Julia da memória.


Enquanto chorava soluços doloridos no cheiro desconhecido do abraço de Maria, Julia tentava perdoar a avó por esquecê-la, mas tinha na boca um amargo esquisito.

Carolina segundos depois a percebeu chorando e foi em direção àquele estranho abraço: puxou Julia para si e perguntou com a boca cheia de amor o que lhe doía, filhinha. Sem pensar em nada, contou à avó que fora, por um lapso, apagada.


No dia seguinte ainda era dezembro e os cajus perfumavam, salgados de mar, o jardim da casa. Mas Carolina não sentava ao jardim, não usava lenço. Não usava nada, não era mais avó, nem mãe, nem esposa, nem velha, nem gente. Era peixe que seu Alfredo contava nos dedos. Era oferenda à Iemanjá. Era mar.


Julia acordou buscando a avó, achou só seu lenço pendurado no cajueiro e o medalhão que ela usava enrolado num galho florido. Chorou sem entender o que tinha acontecido, mas sentindo tudo. Seu Alfredo disse suave, parado atrás dela, que além dos vinte e dois seres e incontáveis carpas, tinham agora duas deusas no mar. Maria disse que Carolina já avisava que só encontraria o céu a seus termos, bichinha de coração de cangaço. Mas chorou, também. E chorou doído a perda do que não tinha se permitido viver.


Agora era março, Seu Alfredo respirara pela última vez tinha dois meses, dias depois que Julia organizara tudo da avó. Antes de ir dormir, dissera a neta que ela fez a vida dos dois, que sentia falta da esposa e que queria ter tido a coragem dela de lembrar quem era apesar de tudo e decidir da vida - e da morte - por si só. O lapso de consciência foi um susto, Julia sentiu no fundo da alma o que aconteceria. Se despediu do avô como queria ter se despedido da avó, deu amor e abraço e o colocou na cama.


Acordou com o pressentimento de chamar a mãe, que saiu chorando quieta do quarto e confirmou a sensação. Durou semanas a dor latente de organizar o pós-vida de uma família inteira, Julia caminhava pela areia da praia com o coração metade no mar e metade no quarto dos avós. Decidira ir embora e agora tinha que se despedir também da casa e daquele mar tranquilo que lhe acolhia como e com os braços da avó.


Em meio a isso tudo, Maria se revelou uma surpresa. Na quarta-feira de cinzas, Julia tinha se sentado no chão para analisar cuidadosa a coleção de relógios do avô. Alguns deles não poderiam ser perdidos no tempo, sabia quais. Maria sentou-se ao seu lado e, sem subir o olhar, começou a falar. Despejou o coração nos relógios, no chão, no colo de Julia, respingou nos móveis e jorrou ao teto. Contou de outro casal que se chamava Carolina e Alfredo, mas não pareciam seus avós, de um outro Caique de Albuquerque, que tinha as feições de seu pai, mas não era ele. Contou de uma outra Maria, que sorria em fotografias posando como sua mãe. E pior, revelou outra Julia, da qual não se lembrava. Julia ouviu em silêncio enquanto via as gotas de água salgada limparem os relógios e a alma da mãe. O susto de uma outra história que não era a sua paralisou seus dedos e seu coração por alguns momentos, ficou estática numa vida que era sua, mas não conhecia. Era a primeira vez que ouvia a história da mãe sem ser por sua própria narrativa.


Não tinha preparo para processar tudo, mas abraçou aquela mulher que acabara de conhecer. Pediu calma e que contasse mais histórias, encarou seus olhos como se encarasse os próprios, tão iguais que eram. Ouviu por dias uma mãe de outra Julia, conheceu a si por lembranças que não tinha se permitido manter.


Julia agora pegava as malas na casa onde cresceu e colocava no carro. Março fazia florescer as nuvens de chuva que logo inundariam a avó, que faria encher os oceanos. O clima quente não dava descanso, mas Julia queria guardar o calor no peito para não passar frio no outro trópico. Maria preparava o café como se nada vibrasse a casa inteira. O ninho se esvaziava. Os pais eram quadros na parede e maresia nas portas de madeira, a filha era mochila nas costas e ligações esporádicas com conversas de café da tarde e ela mesma era, agora, uma novidade.


Julia se despediu da casa e da mãe, chamando-a assim. Fechou os olhos na tentativa de organizar as memórias apertadinhas onde não se mexessem e cuidou de guardar bem aquela ali.


Bateu uma foto da mãe.


Colocou no carro as bagagens mais leves, a mãe, a avó e o avô. No peito, o medalhão e os três, na cabeça, o lenço e o futuro.


Até logo!




O que você sente ao ler o conto? Trouxe memórias suas, também?


7 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Rio

Lembrança

Sem medo pedia coisas à noite, quero ser grande, quero ser independente, desse jeito, com coragem e vontade para criar.

Tempo