Só esteve sozinho ao fim da tarde...

[Lucas de Oliveira Santos, 25 anos, @lucasant_os. Estudante de Psicologia, músico, homem cis, branco, bissexual]


Quando a gente nasce, somos colocados no tempo e “Nascer é apenas começar a morrer” (Théophile Gautier) e é esse caminho que a gente chama de vida: ora, a gente vive como vive uma vez que sabemos da existência desse fim. Não à toa a gente vai morrer tentando controlar esse fim.


Só esteve sozinho ao fim da tarde. Não que a notícia lhe tivesse sido apresentada naquela hora, mas foi o primeiro momento em que conseguiu permanecer sozinho para deglutir a ideia com um copo de chá do lado sem que existisse outra coisa para prestar contas a alguém. Aquela cadeira de madeira em que sentou sempre foi na companhia de alguém que curiosava o que ali havia de passível de se tornar fofoca, ou era com total indiferença. Mas nenhuma vez para tornar comum um potencial espaço de sofrimento que, naquele dia, era causado pela doença que havia deixado seu pai em estado terminal.


Não teve a oportunidade de estar com ele, até porque nada poderia fazer a não ser que fosse lhe dar um novo par de pulmões. Desligou as luzes porque, apesar da quantidade de pessoas, não era comum que as pessoas ali o vissem nesse espaço de fragilidade. Deu um gole no chá pra engolir o choro. Acendeu uma vela porque era de praxe. Voltou para a cadeira de madeira, não porque era confortável, mas não dava para ficar sozinho se não fosse ali.


Por que diabos essa merda deveria ter lhe acontecido agora? Sempre esteve lá com o velho e nunca tinha aparecido nenhum sinal de má saúde. A mãe é quem era doente. O pai era o mais distante e nem imaginava que a morte que se aproximava lhe atingiria tanto. Só atingiu por quê?


Quando, no dia anterior, recebera a notícia — outro gole de chá — a mãe já lhe havia dito que ela daria conta, não tinha motivos para que ele interrompesse seus projetos de vida por conta dessa morte pré-anunciada. “A morte machuca só quem tá vivo, filho. Seu pai deve permanecer bem e, você, permanecer vivo”. Uma cabeça apareceu na janela de onde estava. Nem era para ele estar ali, mas a lágrima que escapou serviu de reprimenda para quem quer que fosse ousar pedir para que deixasse a sala. Era hora de estar sozinho.


Sorriu para a memória da voz da mãe. Era dor de ausência, não dor pela morte — engasgou — A dor da ausência lhe fez pensar quando é que tinha sido presença para aquele homem que estava para morrer em 48h e, principalmente, quando aquele homem tão distante, apesar de pai, lhe foi pai. Era distante, mas ele lhe foi filho. A morte já era dor antes de ser morte. Mas ele pensava: O que foi que ele negou ao pai? O que faltou para resolver nesse tempo? Que mais faltou de vida? Engoliu o resto do chá frio já com um gostinho salgado da lágrima.


“Não me falta resolver nada” pensou. Deu-lhe tudo em vida ou, pelo menos, lhe foi todo. Não haveria dor pior do que saber que poderia ter sido vida para aquele homem enquanto teve tempo. Mas lhe foi; e foi todo. Quando a vida acabou, acabou todo o tempo...


“A morte só machuca quem tá vivo, filho”

Tem hora que bate aquela vontade de controlar o tempo, não é não? Já pensou sobre o fato de que vidas terminam antes do tempo? Que possibilidades existem de ser vida para alguém hoje aí do ladinho? O que será que acontece quando não dá mais tempo?


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