Serena

[Lucas de Oliveira Santos, 25 anos, @lucasant_os. Estudante de Psicologia, músico, homem cis, branco, bissexual]


Quanta angústia carrega essas condições nas quais a gente habita os nossos corpos. Obrigatoriamente típico do humano é ter de conviver com essas coisas que trazem beleza à vida e talvez se angustiar pela morte, seja a coisa que mais traz beleza para a vida.



São três as coisas que originam as angústias de tudo o que é humano: a força da natureza, que nos é implacável; a fragilidade dos nossos corpos, que dia após dia morrem; e a relação entre as pessoas, que fazem a vida ser uma coisa mais bonita. Ela era o próprio fenômeno natural.


Não é sobre ser indelicada ou ruim, mas justamente por ser um canal da delicadeza com que a natureza das coisas se apresenta; do sotaque ao jeito de tratar das coisas através dele. Era como o ar que preenche os pulmões ao organizar as ideias. Não era alguma coisa. Ela só era.


Sobre ser, era tudo em toda coisa, qual a Lua de Ricardo Reis que põe tudo que é no mínimo que faz. Foi-me curioso ver essa ida. Não é todo dia que uma estrela morre e, curioso, sem sugar tudo pra fora do tempo. Isso na semana passada. A sua gravidade apenas (não só apenas, né) me prendeu o pensamento.


Como poderia essa natureza implacável ser detida pela própria fragilidade do corpo? É justamente esse fenômeno que a colocou ali, permeada de tubos e máquinas. Falta pouco.


– Você volta amanhã?


É tão ruim quando essa pergunta, nem depende de você. Mas...


– Sim. Vou trazer o camafeu que você curte. (Eu fingia que levava escondido no bolso. Os próprios médicos já autorizaram alguns alimentos, porque já não fazia mais sentido.)


O caminho de volta foi estranho. Há duas semanas atrás conversávamos sobre o próximo rolê numa gruta que nos falaram enquanto fumávamos um cigarro. Não vai mais acontecer, obviamente; era até bonito ver aquela pessoa compondo os cenários que acabávamos visitando entre amigos. E ela fotografava tão bem que só. Aliás, não paro de pensar nela no passado e essa é a parte que mais dói. Ela está ali, mas só paro de pensar que esteve.


Amanheceu, comprei aquele camafeu com uma noz em cima – negócio exageradamente doce – passou uma ambulância em frente à padaria enquanto pagava o maço de cigarros e os camafeus. Aquela sirene distorcida pela alta velocidade do carro lembrou o dia no qual a ambulância chegou em casa; seu rosto contorcido. Era um AVC; então foi uma grande cascata de órgãos que foram comprometidos um a um.


O sorriso era o mesmo; bendito sorriso bonito com os dois dentinhos da frente separados. Isso tem nome: diastema. Entreguei o camafeu, que ela comeu com fome:


– Bem doce, né.


Ela estava mais fraca, os enfermeiros mexiam ‘nalguma’ coisa que não sei bem o que era. Começou a cair uma chuva mais forte. Ventava muito através da janela que fechei. Sentei do lado da cama e me perguntei quando foi que aquela angústia tinha me invadido pela não ida dela de uma vez; ela me abraçou forte e disse que iria sentir saudade.

Era uma grande tempestade em forma de gente, olhá-la me dava uma sensação bem parecida com a qual sentia quando a gente olha para uma paisagem e diz pra si mesmo: Caramba!


Estava adormecendo. Era uma tempestade, mas, ali, serenou...

É certo que esse é um tema bastante difícil. Mas, já pensou em como as pessoas são de histórias enormes? Já cogitou que todas as pessoas são alguém para alguém? E como pode essa fragilidade dos corpos interromper inúmeras histórias? Não sei se vale a pena pedir para contar, mas já imaginou quantas coisas a gente vai deixando para trás com o tempo que, inevitavelmente, não vai voltar?

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