Uma carta sobre a solidão futura

[Ana Junqueira, 'Sol', 22 anos. @restlesssol_ em todas as redes. Formada em cinema e voluntária no Projeto Curinga]


Quando foi anunciado o tema desse mês, meu cérebro logo resolveu entrar em sobrecarga. ALERTA ALERTA ASSUNTO PROIBIDO ABORTAR MISSÃO em luzes vermelhas piscando dentro de mim, sem pausa para que eu conseguisse sequer colocar a senha e desativar o alarme. Foi daquelas palavras difíceis, não só por simplesmente ser difícil, mas por ser uma que todo mundo, em algum ponto, vai sentir. Para o positivo, negativo, todos eventualmente temos um momento de solidão. Se eu pudesse voltar ao passado, para antes de conhecer eu própria, o que seria a minha versão de solidão, o que eu diria para mim mesma?



Localização desconhecida, Novembro de 2020


Querida Ana (já que o apelido que hoje te rodeia ainda não existe sequer), você ainda não é solitária.


Vamos direto ao ponto: deixa logo de lado essa ideia de que, por ser filha única em uma família pequena, você sabe o que é se sentir sozinha. Quando logo menos o pai vier conversar contigo sobre o futuro que te espera, escuta quieta, em vez de teimar que já sabe o que está por vir. Você não sabe.


Essa ideia louca, que você alimenta no coração há tanto, de sumir no mundo, é muito mais insana do que você sequer imagina. Então se dê um tempinho extra para ler de novo as entrelinhas desse contrato que você quer assinar com o universo.


Os próximos anos vão ser difíceis para você. Para nós. Tome ciência disto antes de dar seu passo à frente, não pule direto com os dois pés como você sempre faz.


Nos primeiros meses você vai pensar em desistir mil vezes. Única vez que seu orgulho vai te fazer bem é aí, porque, spoiler: eu aqui do outro lado sei que você não desiste. Não vai adiantar muito tentar falar com os outros e, acredite em mim, você vai tentar. Eu sei, eu sei, parece difícil de acreditar, mas por mais de uma vez você vai tentar começar uma conversa para explicar o que está se passando contigo. Vou ser sincera, não vale muito a pena. Poupe-se da frustração e engula o nó que te surge na garganta.


O pior, entretanto, vai ser voltar. Estar rodeada de gente, depois de estar sozinha, vai te fazer encarar muitas coisas sobre si que você ainda não está preparada. Você vai ter que começar a aprender a conhecer novamente seus amigos e se apresentar de novo para eles também. Esses meses todos que você vai passar dizendo para você mesma que, quando você voltar, tudo vai retornar ao normal, é balela. Mentira. Besteira. 


Você não é a mesma de quando saiu. Eles não são os mesmos que te viram partir. 


Guarde essa solidão aí fundo em você, torne-se uma com ela. Logo menos, você vai parar de tentar afogar o vazio em outras coisas. Juro que não demora. Se eu te contar que agora consigo fazer nada em silêncio, você acredita? Ganhei essa capacidade de deitar na cama e olhar para o teto, sem precisar sequer colocar uma musiquinha pra tocar.


A solidão vai te ensinar a gostar da sua própria companhia e vai ser a melhor mudança que vai te acontecer.


Vão ter momentos em que você vai esquecer que é sozinha. Vai estar em uma roda de amigos, amigos novos que vieram pós-solidão, amigos que não fazem ideia de quem você era antes, amigos que você precisou somente se apresentar e nunca re-apresentar de novo. E no meio deles você vai se sentir em casa… Até o momento em que não se sentir mais. Quando eles falarem uma palavra que você não conhece, quando voltarem de casa com comida feita pelos pais, quando compartilharem entre si histórias de uma infância e uma realidade tão diferentes da tua, é aí que você se lembra. E a solidão, que você nem lembrava que estava ali, abre os braços em volta do teu coração e te aperta o peito. O lembrar da solidão é sempre a pior parte.


Mas vão ter momentos, ah, momentos maravilhosos mesmo, nos quais sua solidão vai encontrar companhia. Numa roda de conversa você, sem querer, vai descobrir alguém que veio da mesma terra que ti. A partilha de histórias, de experiências, de um passado talvez tão diferente, mas agora tão próximo nos seus destinos. Tua solidão vai segurar as mãos de outra por umas horas e no caminho para casa depois do encontro, você vai perceber que a casa que a Solidão construiu em ti acabou por ser fundação para muitas outras casinhas, para muitos outros sentimentos que alocaram-se acima dela. 


Nessa carta metafórica que escrevo-te, peço que entendas que a solidão não é tua inimiga. Ela está mais para um gatinho que dorme em cima do teu peito. Conforta-te, mas, inevitavelmente, fere-te com as garrinhas de vez em quando ao mudar de posição.


Vão ser tempos sombrios, mas eu estou aqui para dizer que você está bem. Eu estou bem. 


Com carinho do futuro,

Sol.

E para você? A solidão te faz companhia ou te atormenta? Se pudesse mandar uma carta para o passado, para avisar do que estaria por vir, diria o quê?


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