SONO CRU, FLUXO FRÁGIL, APERTOS

[lebiSca, 20 anos. Escritora, poeta, cronista, mulher e sapatã; também conhecida como Débora Maranhês. Redatora fixa. IG: @d_maranhess]


Aviso de gatilhos [descrição detalhada de contato com a morte]


Houve uma ocasião, vesperal a um teste, em que eu encontrei a morte como em uma súbita trombada na esquina. Encontrei-a numa figura caída no chão frio, embora fosse eu quem sentia como se houvesse caído com o trombo. Foi na ocasião de véspera a um teste, eu comecei dizendo aqui e é o que sempre digo, um teste importante que eu teria no dia seguinte; mas a verdade que carrego no peito é que a morte me sabatinou com o que era um teste de verdade. Quebrou a relevância das coisas da vida enquanto eu me desmanchava em lágrimas sobre um corpo rígido.


Ela veio com a sutileza de uma tacada de beisebol na testa e o dobro da dor que a tacada teria. Não, não era a primeira vez que eu lidava com o fim da vida. Eu já havia perdido pessoas, já havia visto olhos fechados que jamais se abririam novamente, havia velado em luto pessoa que outrora eu sentia segurar minha mão em suas ásperas mãos, antes quentes. Há, no entanto, um abismo gigantesco entre encontrar a morte após ser convidado por telefone ou comunicado por alguém (“A morte chegou. Venha vê-la, vamos no reunir tal-hora para velar, uma visita temporária antes que volte ao fundo da terra”) e deparar-se, cara a cara, sem aviso, o baque sendo o encontro pessoal com a quebra da linha em um corpo morto quando esperava encontrar um ser vivo lhe aguardando. Um corpo que não responde. Não respira. Não levanta.


Você chega e o encontra assim. Você chama, ele não ouve. Você pensa que ele está dormindo. Então, ele deve estar dormindo. Depois, ele tem que estar dormindo... Ao fim: por favor, esteja dormindo, acorda. Mas o fim é o fim e as frases como “dormir” acabaram. (Quando eu era criança, tinha medo de dormir por isso). Cheguei chamando seu nome, quando estranhei algo reduzi a voz, depois comecei a tremer e a voz era também trêmula pelo medo da conclusão. Depois, quando o sacudi e ele não se moveu – mesmo os membros não se moveram, rígidos – de repente me vi gritando.


Naquela noite eu não percebi que gritava: informaram-me depois. Gritei pelo nome de quem socorresse, depois gritei “ele morreu”, e eu repeti, repeti, e depois de repetir, falei e pedi “não; vá ver, vá ver, me fala se ele morreu” – afinal, talvez eu tivesse visto errado, havia de ter visto errado, sentido errado, tocado errado, chamado errado, algo havia de estar errado; mas não estava. Ele estava ali, naquele chão frio, naquele lugar escuro, ao fim de um dia em que eu esperava entregar-lhe carinhos, cuidados, remédios; e antes parecia estar melhorando tanto, estava tão forte no dia anterior e ainda naquele mesmo dia... Forte... E eu...


Eu não estava preparada para a morte naquela época.


Na minha fraqueza, simplesmente não estava, muito menos daquela maneira. Ainda que já a houvesse desejado, cantado, chamado, até quase encontrado, ainda que houvesse tentado tê-la; não estava preparada. Antes talvez estivesse ainda menos. Ainda assim, eu me desgracei tanto entre lágrimas e dores que senti como se não possuísse rosto, só uma massa de fluidos e disforme em dores e pontadas e eu soluçava e desesperava-me completamente... E por horas.


Entendo a importância da morte, até mesmo sua beleza. Contudo, nem sempre: às vezes, você que gritar, brigar, acha injusto e abusadamente dolorido. Por isso talvez ainda hoje eu brigue e me assuste com ela. Não com essa narrada em específico, mas com Ela e com sua vagueza escura. Quando estaremos preparados para Ela?


Em crises da minha própria vagueza escura eu esbarro com Seu conceito e choro com um aperto gélido e futuros e passados completamente estranhos que se fundem. Estar vivo é tão... frágil. Como tatuei em minhas costas: frágil. Quebrável como uma taça. Se me olho no espelho, nua, consigo ver o desenho. A insegurança e o medo invadem meu corpo nu: o nu sente o frio, não tem defesas, a pele fraca, os órgãos visíveis, tudo o atinge, incluindo a iminência da morte, a consciência da fraqueza, da minha magreza, meus ossos, poucos músculos.


Mesmo assim, é nessa nudez frágil, exposta ao vento, sozinha, que me sinto viva.


Ontem conversei com alguém muito parecido comigo. Não, não foi ontem: me perdi no tempo, é o que acontece quando choro, entende? Mas conversamos até de madrugada, isso me recordo, e estávamos bêbadas. Conheço pessoas que não superam lutos; conheço quem, também como eu, vive o luto de si própria nos picos de medo; conheço aquelas que dizem ser melhores amigas e em paz com a morte: e às vezes invejo, às vezes também me sinto assim – é raro, mas sinto – e às vezes acredito que estejam mentindo. Curioso acreditar na mentira. Mas a pessoa dessa madrugada me disse que também se confunde com o tempo: disse que fala no presente de alguém que já se foi. Então não foi, não é?

Eu chorei com a história que me contou; disfarçadamente e escondi, mas chorei. Sei que a vida é feita de ciclos, mas nem sempre levo tão simples assim. Se fico pensando demais, sem pílulas, sem meditações, sem afagos ou templos... Tenho medo de certas imortalidades – quem não se vá – como tenho de uma lápide e um vazio escuro.


Para mim, são aqueles mesmos apertos que bagunçam algum órgão e depois testam alguém.


ass: lebiSca.

Abra seu coração: caso já tenha tido esse encontro, o quão fácil ou difícil já te foi lidar com essa fragilidade? Com o fim da vida, ou mesmo com a negação da morte, essa mania de imortalidade - mesmo quando sabemos que não é boa... Você conversa com seus medos e se sente preparado, ou depende do dia e caso?



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