Ultrassom

[Nathália Gomes, 24 anos, mulher, lésbica, branca, estudante de Direito e Relações Internacionais, redatora e revisora do Projeto, @nathora_]


Em meio ao caos e à velocidade insana com que os dias passam quando estamos ocupades, o silêncio das vozes muitas vezes nos soa estranho.


Ser só. Estar só.


Nem sempre é consciente, nem sempre é voluntário. Fato é que em algum momento do dia (da semana, da vida...) estaremos frente a frente apenas com nossa própria companhia. Deleite ou incômodo?


O passar dos dias de isolamento social me fez perceber que seria necessário mudar a relação com as pessoas e principalmente com a solidão. Esta última, a princípio, soava a mim como um som de frequência normal, audível, oscilando em alguns momentos — dependendo ou não da quantidade de pessoas — entretanto, o tempo se encarregou de aumentar essa frequência sonora, tornando este barulho cada vez mais alto, cada vez mais incômodo, cada vez mais desconfortável. Por pouco ela não silenciou minha própria voz eternamente.


Não era voluntário e não era mais imperceptível. Não dava para simplesmente ignorar a solidão berrando aos meus ouvidos. Foi necessário encará-la, senti-la — de certo modo, sofrer com ela e por ela — analisar suas nuances, seus limites e efeitos até que ultrapassasse o limite do audível e pudesse passar por através de mim, deixando visível o que a pele esconde.


De som a ruído. De ruído a estrondo. De estrondo a silêncio.


O silêncio das vozes não é o mesmo silêncio da solidão. Nem sempre o silêncio das vozes gera essa solidão, você pode estar cercado delas e ainda assim se sentir só. Porém, o silêncio da solidão significa, necessariamente, que ela ultrapassou uma frequência tão alta que já não se pode ouvir, não incomoda mais.


Quando foi colocado diante de mim aquilo que só a minha própria companhia — sentida e experimentada — poderia  revelar, dei-me conta da existência de fissuras, de irregularidades. Pude investigar a causa de cada uma delas e tratar. Tratar de mim.


No fim das contas, eu sempre estive aqui, mas só o silêncio, a convivência comigo mesma,, fez-me ter dimensão de mim.

E você? Som, ruído, estrondo ou silêncio: o que representa a solidão pra você?



16 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

quarto