Um longo post-it para mim mesma

[Lara Goulart, 20 anos; Redatora chefe do Projeto e estudante de Psicologia]

|Texto revisado por Débora Maranhês e Ana Lua|



Desabafos sobre me desculpar de mim, aceitar processos e me lembrar de pequenas - e talvez óbvias - verdades que são difíceis de reconhecer e fáceis de apagar.


Aconteceu sem que eu notasse: o não saber me colocou na situação de não ver também. Não pude arder em terror ou ódio, não pude chorar de tristeza nem de dor, não soube que havia rancor ou culpa. Só vivi sem ver.


A referência me escapou pelos dedos. De todas as violências sofridas e - ai, que horror dizer assim! - “permitidas”, essa não tinha se mostrado ainda. Tão escondida entre sorrisos e gargalhadas, abraços e gracejos, não a vi chegar nem partir.


E pior: cotidiano que me pareceu, esqueci-me de registrar e me permiti esquecer. Não vou negar que, se tivesse dado ouvidos, a culpa já falaria. A realidade me encarava enquanto seguia de olhos fechados. Preferi esquecer.


E tentei, muito...


… Mas a memória tem um jeito dela de reviver dores que parecem precisar serem doídas.


Bateu que me rasgou: o que não existia passou a aparecer em memórias - minhas e de outres - que pareciam desafiar a física. Não soube dizer qual realidade era qual, nem o que me incomodava mais: ter lembrado que me esqueci ou ter esquecido, para começar.


O que antes não existia passou a ser quase-nada e por muito tempo foi breu; até que passou a ser quebra-cabeça doloroso, o de tentar resgatar o que foi e agora é, de repente, dor latente em todo ângulo.


Sei que ainda não sei lembrar, que não sei rastrear o que é o que, nem o que dói onde. Sei que ainda não sei reagir às memórias e, muito menos, aos esquecimentos. Sei até mesmo que caminhar de volta e para frente ao mesmo tempo é trabalho duro e que vão doer a sola dos pés, o contorno dos olhos e o coração.


E dói.


Dói ter visto e ter vivido, dói ter esquecido e dói lembrar.


Vai doer até sarar.


E me custa manter lembrete de que, para a cura, é preciso arder no resgate da memória; de que o esquecimento não estanca e só faz pus; de que o futuro também tem bagageiro.





Esse é um desabafo e um lembrete. Talvez não faça sentido algum e talvez faça todo o sentido. De qualquer forma, é bom reconhecer que esses processos são muitos e são de todes. Já aconteceu com você?



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