Um (quase) autorretrato de quarentena

[Ana Laura Ferreira, 18 anos, Mulher cis branca, estudante de Psicologia]


Sabe aqueles momentos em que você não espera que aconteça alguma coisa, mas então acontece e você ri consigo mesma, como se fosse uma piada interna entre você e o Universo? Bem, hoje vou contar sobre um certo vestido cinza…

De manhã, o sol brilhava intenso quando escolhi colocar um vestido cinza, há muito esquecido em uma gaveta do meu guarda roupa. É que uma vez vi na TV que podemos usar as cores das roupas para equilibrarmos o Dentro e, há algum tempo, tenho abandonado as cores fechadas (disso basta o mundo).


Enquanto eu lia, estudava, trabalhava, ele anotava tudo o que eu transmitia em suas dobras. Todos os suspiros que dei ficaram na barra; toda a confusão de cabeça agitada, no seu comprimento; as lágrimas ficaram na gola por motivo de proximidade (caso quisessem rolar direto para o lugar de onde saíram). Depois de torcer, esticar, sacudir e encolher, o vestido me conduziu à cama. Desenrolou os segredos escondidos no seu balançar, deixou-se ficar transparente conforme eu olhava, direcionou seu comprimento acima do meu quadril, envolvendo meus braços e pescoço. Ele se sentia preso a mim? Ou foi uma amostra do que eu mesma me expunha?


Lentamente, o pano cinza me soltou e deslizou por toda a minha pele, acariciando meu corpo. A carne prende a essência, a roupa prende a carne e assim continua a longa cadeia das coisas presas a nós. O cinza encostou levemente em minhas pálpebras fechando meus olhos, como as pessoas fazem com quem se foi. Mas eu ainda estava lá. Pelo menos achava que sim.


Há dias em que o vento bate e sinto-me indo junto. Dias que vejo uma criança soltar pipa e me pego olhando a cidade por cima. Dias em que o sol me conta que faz parte de mim e brinco de adivinhar em que parte do meu corpo ele se esconde. Por isso, desde o começo da quarentena, tenho usado vestidos longos que ultrapassam meus sapatos: se tropeço ao caminhar, lembro-me que há chão.


Desde que uma partícula parou o mundo, tenho brincado de imaginar o que de mais inesperado poderia acontecer a cada dia. Semana passada pensei que, ao dirigir, meu carro poderia simplesmente resolver que era um submarino e então cavaria a terra à procura do mar. Ontem, imaginei que haveria uma parte do corpo que cutucaríamos e seríamos transportados para onde nosso coração se encontra. Revirei meu corpo, apertando cada parte duas vezes (para ter certeza, né?) e nada aconteceu. Decepcionada, entendi que não poderia voltar a quando meu nariz não precisava usar cortina: o coração deve permanecer no presente, senão para de pulsar.


Ao final do dia, não senti que aquele vestido cinza havia me ajudado, me apoiado, me ensinado e, muito menos, me tampado. Tirei-o num puxão, joguei na cama com brutalidade e o encarei por um tempo, como quem contempla a cena de um crime. Estirado no colchão, vi uma silhueta encolhida e sofrida — parecia até mesmo chorar. Aproximei-me com calma, pedindo licença conforme me achegava. Deitei ao lado do que agora, além de vestido, eu enxergava como ser. Aquele pano que antes estava no meu corpo, agora era corpo. Mas, o que tinha, então em seu Dentro? Se eu perguntasse, alguma voz responderia?


Levantei-me devagar, para encarar a cena por cima e eis que me deparo comigo mesma dentro do vestido. Mal pude acreditar: corri e peguei o celular para tirar uma foto do que estava na minha frente. Um (quase) autorretrato. Sabe, é que desde que o isolamento começou tem sido trabalhoso sustentar sorriso em foto, então, de uns tempos para cá, cessei as tentativas. Mas agora, com a foto em mãos, rio da ironia: meu autorretrato mais verdadeiro nem ao menos me continha.


Após esse dia, entendi que, mesmo se meu carro fugisse para o mar, não me espantaria tanto quanto faz a arte, que respira por si mesma, como se falasse baixinho: ei, humana, sempre estarei aqui, então vê se abre o olho bem grande, viu?


[Foto por Ana Laura Ferreira, 18 anos, Mulher cis branca, Estudante de Psicologia]

Ei, você! Fecha os olhos rapidinho. Imagina e me conta aqui o que de mais inesperado pode acontecer com você AGORA?




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