Ursos, toupeiras e preguiças

[Bianca, 24 anos, mulher branca, cis, psicóloga, momentaneamente em crise com o vir-a-ser, redatora e revisora no projeto Curinga, ig @biancabrbz]


“Para ser grande, sê inteiro: nada

Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és

No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda

Brilha, porque alta vive.”

- Ricardo Reis. (Fernando Pessoa)


Quando penso em solidão, sempre me vem a imagem de uma pessoa fazendo uma viagem sozinha. Ela é alguém que está solitária e, de fato, um mar de possibilidades está aberto para ela. Não existe um acordo a ser cumprido, não existe hora marcada. O mundo é sua ostra, como disse Shakespeare. Essa ideia pode ser excitante, mas também gerar certo receio. Todas as decisões serão tomadas individualmente e, portanto, a responsabilidade também é indivisível e intransferível. É o extremo oposto daquelas viagens cheias de gente em que cada passo é uma assembleia cheia de concessões e, por isso, ninguém fica totalmente satisfeito.

A solidão, no aspecto da solitude que estou recortando nesse texto, antes de qualquer coisa, coloca-te em contato consigo mesmo e evidencia o autoconhecimento. Isso se relaciona estreitamente com o que eu disse sobre as decisões. Quando se está só, você é quem decide a sua rotina, você é o responsável pelo que vai comer, por quem vai responder, qual o horário vai tomar banho e, até mesmo, se vai levantar da cama naquele dia. Você está dentro da sua toca. Você pode hibernar. Ninguém te diz o que você deve pensar. Ninguém vai te dizer “esse não” quando você for decidir por um filme num catálogo de streaming. Você precisa ser responsável por descobrir a sua própria forma de estar bem e de apreciar a própria companhia.

Essas pequenas escolhas diárias têm um enorme potencial para nos levar rumo a autenticidade. Após um determinado período fazendo as próprias escolhas sem ter alguém para consultar, vi que o meu saldo era positivo. Aprendi que minhas escolhas pessoais devem ser tomadas, acima de tudo, levando em consideração a minha vontade e as consequências dessas escolhas. Senti-me mais segura e, enquanto seguia meu próprio caminho, deixei de me sentir obrigada a dar satisfações sobre escolhas mínimas, as quais outrora busquei validação de outrem para consolidar.

Considerando isso, tomei várias decisões importantes sem anunciar para (quase) ninguém. Mudei de casa, fiz tatuagens, pintei e cortei o cabelo, viajei. Só compartilhei depois que já estava feito, só após não ter como voltar atrás. Após estar perfeitamente decidida e satisfeita com as minhas vontades e escolhas, fui e fiz, feliz. E fiquei totalmente em paz. É libertador não ouvir opiniões contrárias àquilo que realmente se quer. Quando as pessoas souberam, já estava feito, portanto, as repercussões, fossem negativas ou positivas, eram assunto para outro momento. Meus sonhos do daquele tempo foram realizados.

Ademais, estar só envolve ter responsabilidade e autonomia. Quando se mora ou viaja sozinho, você precisa ter autonomia para controlar seus gastos, organizar sua alimentação, seu ambiente. Precisa saber acudir eventuais problemas, precisa estar preparado para o que fazer caso fique doente ou aconteça algum acidente. Precisa saber se virar para gerir o tempo, entregar os trabalhos, cumprir prazos, regar as plantas, cuidar do pet, não esquecer de cuidar de si mesmo, de lavar o banheiro e por aí vai uma imensa lista de afazeres solitários. Essa é a hora que nos vemos nos versos do Engenheiros do Hawaii: “pensei que era liberdade, mas era só solidão”.

A parte interessante é que é impossível estar sozinho o tempo todo. Nós precisamos uns dos outros, em maior ou menor grau. Estamos conectados em termos de ofertas de serviços, bens, necessidades básicas e, principalmente, nas marcas que as nossas relações nos deixam. É complexo saber o seu limite, saber onde seu limite acaba e onde o do outro começa; saber quais são suas verdadeiras ambições e o real tamanho da sua dependência; diferenciar o que é sua voz e vontade e o que é o eco das imposições dos seus pais (ou quem quer que tenha tomado decisões por você anteriormente).

E a parte ruim é que estar sozinho também cansa. Nós precisamos ser vistos e reconhecidos. Quando amo muito alguma experiência, quando me sinto muito bem, compartilhar o momento, o sentimento, a obra, seja o que for, é como uma extensão da duração daquele prazer. É como se trouxesse alguém para dentro daquela bolha momentânea de satisfação e dividir o momento intensifica tudo. Primeiro, você conhece seus deleites e, depois, gentilmente convida alguém a se deleitar junto. Nesse momento, é-se inteiro. Um inteiro que multiplica. E é maravilhoso quando se é convidado a desfrutar daquilo que encanta o outro.

Dito isso, é fácil compreender o porquê de saber o que uma pessoa faz quando está sozinha é tão importante para conhecê-la. É nesse momento de solidão em que, despida das normas e expectativas alheias, ela se revela a si mesma.

Então, conta para nós, qual foi a decisão solo mais importante que você já tomou sem consultar ninguém? E qual a mais difícil? Como você usa o seu tempo livre? Quando é que você se sente inteiro?


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