Versos livres (mas nem tanto)

[Ana Lua, 20 anos, mulher cis, branca, estudante de direito; revisora chefe do Projeto]


Toda a realidade e rotina diária da maioria das pessoas mudou completamente desde março de 2020. Analisando a sua mudança de paradigma, quanto de arte você acha que estava presente antes no seu dia a dia e o quanto está agora?

Desde que sou bem pequena, aos cinco anos de idade, eu já escrevia poesias. Minha mãe foi quem me ensinou a ler e escrever e ela o fez utilizando um livro de poesias da Cecília Meireles. Por conta disso, todo meu contato com a arte escrita já foi diretamente com uma especificação deste tipo: o poema. Como eu só tinha familiaridade com a poesia, era natural para mim que tudo que eu escrevesse, sempre que quisesse me expressar, fosse em forma de decassílabos e estrofes. Todes falavam que eu era uma criança super inteligente por já “dominar” uma escrita muito penosa para a maioria das pessoas mais velhas. Mas naquele momento, para mim, aquilo não era arte, era apenas meu mecanismo natural de relacionamento com o mundo que explodia para fora de mim.


O tempo passou e eu me identifiquei dentre aqueles versos que cresciam de redondilhas menores para redondilhas maiores conforme eu florescia. Passei a reconhecer a arte que exalava de mim de forma natural como arte que era vista e reconhecida por todes. Passei por um processo de quebra e reconstrução do meu ser em forma de palavras que rimavam e conectavam-se entre si e comigo em cima de um papel, para ver se ali, naquela tela branca e fria, eu entendia um pouco mais do que era ser eu mesma.


Então, veio o vírus. O vírus que parou tudo e todes e levou consigo muitas histórias inacabadas de pessoas que tinham ainda muitas outras para viverem. A tranca de nossas casas foi fechada por fora e jogaram a chave longe. O sentimento de medo, sufoco, impotência, desespero, ansiedade, angústia, aperto, irritação, ódio… morte. Tudo tomou conta e paralisou, pairou em lago sereno a arte que antes despejava em correnteza. E eu me vi atônita, sem produzir mais nada, apenas respirando a arte que era colocada a minha frente, como forma de remédio paliativo para os meus dias sem cor.


Essa pausa que tive que fazer (fui forçada) também trouxe algumas reflexões nos curtos períodos em que minhas sinapses funcionavam. Percebi que minha refeição diária de obras de arte tornou-se rasa, com nutrientes de fácil absorção, pois meu corpo e mente não tinham forças para processar e digerir qualquer coisa pouco maior que uma comédia romântica. Mas, apesar dessa virada de tabuleiro, quando eu estava caída e olhando tudo de cabeça para baixo, percebi coisas presentes no meu cotidiano há tempos e que não eram reconhecidas pelo meu Eu como obras de arte. Tomei consciência do quanto a arte nos rodeia e dá vida pulsante a todes nós, tudo que tocamos e respiramos vibra arte e chegou a hora de darmos o devido valor. Todes es artistas que estão, de alguma forma, esforçando-se para continuarem produzindo e dando um pouco de alegria aos nossos dias cinzas devem ser reconhecides, apreciades e respeitades. Pois, da mesma forma que eu travei, também elus estão lutando para superarem esse bloqueio e, sem elus, eu já estaria sem chão, nem parede, nem teto, teria desfeito em pedacinhos pequenos do que um dia chamei de casa e minha essência perambularia pelos cantos.

Esse foi um pouco do meu relato de vivência cotidiana com o “novo normal”. E você, como está lidando com tudo isso? Acha que passou a estar mais atente às coisas ao seu redor e a valorizar mais a arte como um todo?



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