Vida em morte


[Ana Lua, 20 anos, mulher cis, branca, estudante de direito; revisora chefe do Projeto]



A violência advém de diversas fontes e das mais diversas maneiras. Desde um ato violento diretamente apontado a um sujeito até políticas e conjunturas que colocam toda uma população num estado de absurda vulnerabilidade e mazelas. A vida constantemente permeada pela miséria e sofrimento pode acabar perdendo seu sentido de “vida” e se tornar, então, uma morte arrastada pelos pés antes mesmo de se sucumbir ao chão.


Sol. Seca. Miséria. Assim é a vida de Severino desde que foi expulso do ventre para o vento. Quando criança já percebeu que catar caranguejo era o que havia (quando havia). Enquanto a fome mata um pouco a cada dia, dê graças aos céus se não sofrer uma emboscada pelo pequeno pedaço de terra que tem. Saber lavrar até pedra é o que todos fazem, todos Severinos, todos iguais, em tudo na vida.


O jeito é seguir para Recife, onde a vida é menos dura e pode-se estender, pelo menos um pouco, a morte de velhice antes dos trinta. Mas como seguir o rio, sendo que nem as águas se aguentam nesse chão duro e seco e vão se esvaindo até não sobrar rastros. O caminho era por aqui ou por ali? Esses afluentes faziam uma bifurcação ou esses resquícios são de algum desocupado? Para todo lugar que se olha é mais do mesmo, um cenário inacabável de pedras e sol escaldante, daqueles que descem à terra e voltam aos olhos. Não se vê mais emigrantes, a esperança que um dia os guiava foi enterrada junto com seu filho nascido já sem ar.


A tela que parece ter se estabelecido no horizonte repete-se, não importa o quanto ande. Com tudo mais estático, duro e oco, a única coisa que se move são as procissões. Tantas procissões, ladainhas cantadas e corpos velados. Todos Severinos, da mesma sina viviam e padeceram. Por um pouco de terra, este levou uma bala que avoava feito pássaro. De fome a cada dia, aquele finalmente se rendeu. A pouca vida que se encontra, é, ainda, vida severina, aquele que é menos vivida que defendida. E agora, se abre o chão e te abriga, lençol que não tiveste em vida. É a parte que te cabe deste latifúndio.


Para quem esperava encontrar vida e grandes terras de plantações, só com a morte se depara. Só a morte te acompanha, nem o rio acredita na tua empreitada. Pois bem, se apenas a morte pode ser alcançada, a morte é o que se deve acolher. Que interesse há nessa vida a retalho que é cada dia adquirida, que diferença faria se, em vez de continuar, tomasse a melhor saída: a de saltar, numa noite, fora da ponte e da vida?


Afinal, somos muitos Severinos, iguais em tudo e na sina.

Esse pequeno conto relata essa realidade (porque é, sim, uma realidade em diversas áreas do país e do mundo): da violência infligida a cada dia e a morte arrastada numa existência que nunca foi sequer vivida. O texto é inspirado na obra de João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina, que foi escrito em formato de auto teatral, mas também transformado em livro e adaptado para o cinema. O que vocês acharam? Já conheciam a obra e a história? Conta aqui nos comentários o que isso te faz sentir.



8 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Serena