XX: a solidão de nascença

[Ana Lua, 20 anos, mulher cis, branca, estudante de direito; revisora chefe do Projeto]


Aviso de gatilho: [violência sexual]


Acordo. Não sei onde estou e não sei se deveria estar aqui. A noite anterior me parece um sonho. Não, um pesadelo. Dos piores que eu já tive e não posso contar a ninguém.



Vou começar a história do começo. Bem do começo. (Na verdade, creio que o início foi bem antes do que lembro, mas não posso contar aquilo de que não tenho recordações). Logo aos cinco anos de idade já atraía olhares. Olhares dos quais não entendia muito bem à época (ainda não entendo) e comentários como “Melhor prestar atenção nela, hein? Será uma mocinha e tanto” ou “Essa daí vai dar um trabalho para os pais…”. Por que eu daria trabalho? Sempre fui uma criança tão obediente… Acho que o trabalho era outro, aquele do qual criança nenhuma deveria ser responsabilizada tão jovem.


Os anos passam e começo a brincar na rua. Jogar bola, esconde-esconde, subir nas árvores e telhados para recuperar um brinquedo. Sempre suja e de roupas rasgadas porque havia caído por algum lugar. “O que acha que está fazendo? Meninas não devem brincar dessa forma, apenas os meninos podem ter brincadeiras tão…tão…ativas. Meninas devem brincar dentro de casa, seja mais comportada. Arrume esse cabelo, vá colocar uma roupa mais arrumada, aprenda a se portar”.


A menarca chega e a preocupação aumenta. Tanto pai quanto mãe apressam-se em ensinar “as coisas que adultos fazem” e o porque não devo fazê-las. A vergonha ao redor de um simples pacote de absorvente me domina quando preciso ir até o banheiro. Onde já se viu coisa dessa, todes vão pensar que estou suja, que não tenho honra mais.


Mais um tempo passa e o os casais começam a se formar. Independente da composição do casal, vejo que todas as meninas receberam o mesmo recado: “Tome muito cuidado, a gravidez não é algo a ser desejado no momento e todes sabemos que a responsabilidade é apenas da menina”. Menina… palavra engraçada para atribuir a pensamentos de maternidade futura. Aprendi na escola que mulheres são mães, porque uma menina deveria se preocupar? Enfim…


Relacionamentos não tão bons se apossam de mim. Sempre chorando pelos cantos, com medo do que falar, pensando milhares de vezes na melhor forma de dizer alguma coisa, para não enraivecer a outra pessoa. Acho que não me reconheço mais em mim mesma. Vou procurar ajuda, talvez outra pessoa entenda o que estou passando. “A culpa é sua, olha o que fez, olha o que vestiu, é claro que ele iria ficar bravo”; “Ora, mas se você não gosta do relacionamento basta sair dele, a solução é óbvia. Se ainda não acabou, é porque não é tão ruim assim. Deve até gostar…”.


Vida liberta, mais nenhum relacionamento vai me machucar novamente. Decidido ser dona de mim, aproveito a vida do jeito que quero, saio com minhes amigues e estou finalmente feliz! Mas, espera...O que estão falando agora? Não pode ser, o que foi que fiz? “Você viu? Não quer mais namorar. Deve ter virado uma vadia. Desse jeito, nunca vai arranjar um marido”.


Não vou deixar me abalarem. Sigo minha vida da forma que acho correta. Quem tem que ser feliz sou eu, não é mesmo? Espera aí moço, eu não estou interessada. Por favor, deixe-me ir embora. Tudo bem, apenas um drink - quem sabe assim ele me deixa em paz - penso.


Acordo. Não sei onde estou e não sei se deveria estar aqui. A noite anterior me parece um sonho. Não, um pesadelo. Dos piores que eu já tive e não posso contar a ninguém. O bar que estava já informa para elus que não sou “de respeito”. A roupa diz “não escute o que digo, minha vestimenta é a permissão que precisa”. O drink que bebi para tentar me livrar da companhia não desejada justifica o ato dele. Se não queria, porque aceitei, não é mesmo?


A solidão toma conta. O pior pesadelo da minha vida e não posso contar a ninguém. Quem acreditaria? Quem vai defender? Sempre estive sozinha, desde o nascimento, mas só agora me dei conta. A solução é olhar para frente, empurre toda a dor, vergonha, trauma e asco do próprio corpo para um canto escuro. Próprio corpo? Não, deixou de ser meu há muito tempo, apenas servia para outres. Menina burra, não sabia disso?


Acordo. Não sei onde estou e nem para onde vou. A vida até aqui me parece um sonho. Não, um pesadelo. Dos piores que eu já vivi e não posso contar a ninguém. Passe o batom, ajeite o cabelo, coloque a roupa correta. Siga em frente, só você está ao seu lado no fim das contas.


Assinado: a solidão iminente de

todas as mulheres.

Infelizmente essa é uma realidade de muitas mulheres, mais do que eu posso imaginar. Pelo menos algum aspecto da crônica acima está presente no dia a dia de cada uma e elas seguem sozinhas, solitárias dentro da própria sociedade que criou tais ameaças. O que você acha que pode fazer para ajudá-las? Você é uma delas? Você toma para si sua parcela de responsabilidade?

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